O manifesto censurado de Albert Camus

Em 1939, o escritor Albert Camus quis publicar um vibrante texto que convidava os jornalistas para permanecerem livres.

Albert Camus, foto de Henri Cartier-Bresson

Por Albert Camus

“Hoje, é difícil discutir a liberdade de imprensa sem ser acusado de extravagância, sem ser acusado de ser Mata Hari, sem se ver convencido de ser sobrinho de Stalin.

No entanto, essa liberdade, entre outras, nada mais é do que é uma das faces da liberdade plena e entenderemos a nossa determinação para defendê-la se estivermos dispostos a admitir não há outra maneira para realmente ganhar a guerra.

A liberdade, certamente, tem seus limites. Ainda assim, eles devem ser reconhecidos livremente. A propósito dos obstáculos erguidos, hoje, à liberdade de pensamento, nós já dissemos, além do mais, tudo o que pudemos dizer e diremos de novo, e à exaustão, tudo aquilo que nos será possível dizer.

Em particular, nunca deixará de nos espantar, uma vez imposto o princípio da censura, que a reprodução dos textos publicados na França e visados por censores metropolitanos sejam proibidos ao Soir Républicain [jornal publicado em Argel, no qual Albert Camus foi editor na época], por exemplo. O fato, a este respeito, de um jornal depender do humor ou da competência de um homem mostra melhor do que qualquer outra coisa o grau de inconsciência a que chegamos.

Um dos bons preceitos de uma filosofia digna desse nome é nunca se derramar em choro inútil diante de um estado de coisas que não mais pode ser evitado. A questão na França de hoje não é de se saber como preservar a liberdade de imprensa. Mas de procurar como, face à supressão destas liberdades, um jornalista pode permanecer livre. O problema não interessa mais à comunidade. Ele diz respeito ao indivíduo.

E, justamente, o que gostaríamos de definir aqui são as condições e formas pelas quais, mesmo dentro da guerra e suas sujeições, a liberdade pode ser, não apenas preservada, mas ainda manifestada. Estes meios são em número de quatro: lucidez, recusa, ironia e teimosia.

A lucidez implica resistência aos impulsos do ódio e ao culto da fatalidade. No mundo da nossa experiência, é certo que tudo pode ser evitado. A própria guerra, que é um fenômeno humano, pode, em todos os momentos, ser evitada ou encerrada por meios humanos. Basta conhecer a história dos últimos anos da política europeia para ter certeza de que a guerra, qualquer que ela seja, tem causas óbvias. Esta visão clara das coisas exclui o ódio cego e desespero decorrentes.

Um jornalista livre, em 1939, não se desespera e luta por aquilo que acredita ser verdadeircomo se sua ação pudesse influenciar o curso dos acontecimentos. Ele não publica qualquer coisa que possa incitar ao ódio ou causar desespero. Tudo isso está em seu poder.

Diante da crescente onda de estupidez, é necessário também que se imponha algumas recusas. Nem todas as restrições do mundo farão com que um espírito adequado aceite ser desonestoOra, por pior que conheçamos o mecanismo da informação, é fácil verificar a autenticidade de uma notícia. É a isso que um jornalista livre deve dar total atenção. Pois, se ele não pode dizer tudo o que pensa, a ele é possível não dizer o que não acredita ou julgue falso.

é assim que um jornal livre é medido, tanto pelo que ele diz quanto por aquilo que não diz. Esta liberdade inteiramente negativa é de longe a mais importante de todas, se soubermos mantê-laPois ela prepara o advento da verdadeira liberdade. Assim, um jornal independente dá a fonte de suas informações, ajuda o público a avaliá-las, repudia a doutrinação, remove comentários violentos e injuriosos, supera a padronização das informações através de comentários, em suma, serve à verdade na medida humana de suas forças. Esta medida, por relativa que seja, permite que ele, ao menos, recuse o que nenhuma força do mundo poderá fazê-lo aceitar: servir a mentiras.

Isso nos leva à ironia. Pode-se postular quem, em princípio, uma mente que tem o gosto e os meios para impor restrições é impermeável à ironia. Nós não vemos Hitler, para dar um exemplo entre tantos, usar a ironia socrática. Decorre daí que a ironia permanece uma arma sem precedentes contra aqueles demasiadamente poderosos.

Ela complementa a recusa na medida em que permite, não mais rejeitar o que é falso, mas muitas vezes dizer o que é verdade. Um jornalista livre, em 1939, não tem muitas ilusões sobre a inteligência dos que oprimem. Ele é pessimista no que se refere homem.

Uma verdade enunciada em tom dogmático é censurada nove em cada dez vezes. A mesma verdade falada agradavelmente é censurada, tão somente, em cinco de cada dez vezes. Esta tendência simboliza quase exatamente as possibilidades de inteligência humana. Ela também explica que os subjugados jornais franceses, como Le Merle ou Le Canard, consigam publicar regularmente os artigos corajosos, como sabemos. Um jornalista livre, em 1939, é necessariamente irônico, ainda que o seja muitas vezes contra a sua vontade. Mas a verdade e a liberdade são senhoras exigentes posto que têm poucos amantes.

Esta atitude da mente, definida brevemente, é claro que não pode eficientemente se sustentar sem um mínimo de obstinação. Muitos obstáculos são colocados à liberdade de expressão. Eles não são o que, mais severamente, pode desencorajar um espírito. Pois as ameaças, as suspensões, os processos normalmente usados na França têm o efeito oposto ao que se propõem. Mas deve-se admitir que são obstáculos desencorajadores: a constância na estupidez, a covardia organizada, a desinteligência agressiva, e assim por diante. Esse são os maiores obstáculos que devem ser superados. A obstinação é, aqui, virtude cardinal. Por um paradoxo curioso, mas evidente, ela se coloca a serviço da objetividade e da tolerância.

Aqui está um conjunto de regras para preservar a liberdade mesmo dentro da servidão. E então? Você perguntará. Depois? Não sejamos demasiado apressados. Caso cada francês esteja disposto a manter em sua esfera tudo o que ele acredita ser verdadeiro e justo, se ele quiser fazer sua pequena parte na manutenção da liberdade, resistir ao abandono e expressar sua vontade, então e só então, esta guerra será vencida, no sentido mais profundo da palavra.

Sim, é frequente que um espírito livre deste século faça, a contragosto, sentir sua ironia. O que encontrar de agradável neste mundo em chamas? Mas a virtude do homem é conservar-se firme em face de tudo aquilo que o nega. Ninguém quer recomeçar dentro de vinte e cinco anos a dupla experiência de 1914 e 1939. É preciso, portanto, experimentar ainda um método inteiramente novo que seria a justiça e a generosidade. Mas estas são expressas apenas em corações já livres e em espíritos ainda clarividentes. Formar estes corações e espíritos, despertá-los acima de tudo, é a tarefa, ao mesmo tempo, modesta e ambiciosa que cabe ao homem independente. É preciso cumpri-la sem enxergar mais adiante. A história levará em conta esses esforços, ou não. Mas eles terão sido feitos.”

Tradução por César Locatelli, especial para os Jornalistas Livres

Texto publicado no Le Monde em 2012, em http://www.lemonde.fr/afrique/article/2012/03/18/le-manifeste-censure-de-camus_1669778_3212.html

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Burgueses

Por Nicolás Guillén


No me dan pena los burgueses vencidos.
Y cuando pienso que van a darme pena, aprieto bien los dientes y cierro bien los ojos.


Pienso en mis largos días sin zapatos ni rosas.
Pienso en mis largos días sin sombrero ni nubes.
Pienso en mis largos días sin camisa ni sueños.
Pienso en mis largos días con mi piel prohibida.
Pienso en mis largos días.


—No pase, por favor. Esto es un club.
—La nómina está llena.
—No hay pieza en el hotel.
—El señor ha salido.
—Se busca una muchacha.
—Fraude en las elecciones.
—Gran baile para ciegos.
—Cayó el Premio Mayor en Santa Clara.
—Tómbola para huérfanos.
—El caballero está en París.
—La señora marquesa no recibe.


En fin, que todo lo recuerdo.
Y como todo lo recuerdo,
¿qué carajo me pide usted que haga?
Pero además, pregúnteles.
Estoy seguro
de que también recuerdan ellos.


Tomado de La rueda dentada, en Obra poética 1920-1972, La Habana, Instituto Cubano del Libro, 1972
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Fonte: Iroel Sánchez

Patria es humanidad – Una Importante idea martiniana

El 26 de enero de 1895, bajo el título de “La Revista literaria dominicense”, por vez primera se expone, explica y esclarece lo que se convertiría en un concepto fundamental dentro del pensamiento martiano: Patria

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Fonte: Gramna

 

“Cada cual se ha de poner, en la obra del mundo, a lo que tiene de más cerca, no porque lo suyo sea, por ser suyo, superior a lo ajeno y más fino o virtuoso, sino porque el influjo del hombre se ejerce mejor y más naturalmente en aquello que conoce, y de donde le viene inmediata pena o gusto; y ese repartimiento de la labor humana, y no más, es el verdadero e inexpugnable concepto de la patria.”

Con estas palabras se inicia la nota aparecida en “Patria” el 26 de enero de 1895, bajo el título de “La Revista literaria dominicense”, don­de por vez primera se expone, explica y esclarece lo que se convertiría en un concepto fundamental dentro del pensamiento martiano, cuya vigencia alcanza hasta hoy y se extiende indetenible como mensaje al mundo.

Más adelante, añade: “Patria es humanidad, es aquella porción de la humanidad que vemos más de cerca y en que nos tocó nacer; y ni se ha de permitir que con el engaño del santo nombre se defienda a monarquías inútiles, religiones ventrudas o políticas descaradas y hambronas, ni porque a estos pecados se dé a menudo el nombre de patria, ha de negarse el hombre a cumplir su deber de humanidad, en la porción de ella que tiene más cerca. Esto es luz y del Sol no se sale. Patria es eso”.

Es históricamente importante conocer, sin embargo, a quién va dirigida la nota de “Pa­tria” y cuál es el motivo utilizado como oportunidad o pretexto para dar a conocer tan profundas consideraciones.

La citada publicación así lo explica: “En San­­tiago de Cuba vive ahora, en inseguro refugio, el dominicano Manuel de Jesús Peña[1], a quien llama un diario santiaguero, con razón “maestro celosísimo, abnegado periodista, fundador afortunado, diputado integérrimo y ministro sin tacha”, lo cual quiere decir que es el hombre de veras, porque ha amado y sacó la honra salva de la tentación del mundo. Pu­diera el anciano Peña, allá en la “medianezga comedida” en que vive, descansar en infructuoso silencio de su vida de idea y batalla; pero él sabe que es ladrón y no menos, quien siente en sí fuerzas con que servir al hombre y no le sirve. Estos cómodos son ladrones; son desertores, son míseros, que en el corazón del combate huyen y dejan por tierra las armas”.

El saludo martiano al nuevo empeño es recogido al concluir el texto que, sin aun saberlo ni Martí ni Peña, pasará a ocupar un sitio prominente en la historia de Cuba y América: “El anciano Peña quiere que le conozca mejor el país en que nació y en que los cubanos se ven como en casa propia, porque ambas sangres han corrido juntas contra el mismo tirano; y a ese fin publicará en Santiago la Revista Lite­ra­ria Dominicense, que ya todos encomian y sa­ludan. A esa literatura se ha de ir; a la que en­san­cha y revela, a la que saca de la corteza en­sangrentada el almendro sano y jugoso; a la que robustece y levanta el corazón de Amé­rica. Lo demás es podre hervida y dedadas de veneno”.

[1 ]Don Manuel de J. Peña y Reynoso fue Ministro de Céspedes en la primera República cubana y también Ministro en su Patria, en el gobierno de Espaillat. Después de servir como patriota en Santo Domingo y Cuba se dedicó, en ambos países, al magisterio.

Bibliografía:
Rodríguez Demorizi, Emilio. Martí en Santo Domingo. 1978. Págs. 205-206