Encerrada a CELAC, presidentes do bloco apelam à cooperação regional

A IV edição da Cúpula da Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos (CELAC), foi encerrada nesta quarta-feira (27) em Quito, no Equador, com declarações dos presidentes do bloco para o enfrentamento de problemas comuns como a crise econômica, o combate à extrema pobreza e a ameaça do Zika vírus

 

Chefes de Estado reunidos na IV Cúpula da CELAC
Chefes de Estado reunidos na IV Cúpula da CELAC (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

Encerrada a reunião da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC) em Quito, o tom geral dos pronunciamentos dos chefes de Estado presentes foi o apelo à cooperação regional como a melhor forma de resistência aos desafios econômicos, sociais e políticos dos 33 países que compõem o bloco.

Anfitrião da Cúpula, o presidente do Equador, Rafael Correa, criticou o domínio dos mercados financeiros sobre o bem-estar dos povos e ressaltou que a sociedade não pode ser tratada como mercadoria.

Além disso, o líder equatoriano também falou sobre as negociações de paz, que estão em curso entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Rafael Correa lembrou ainda aos presidentes e representantes do bloco, que em 2014 a América Latina e o Caribe foi declarada “zona de paz” durante a Cúpula da CELAC ocorrida naquele ano em Havana.

O presidente do Equador também se referiu à necessidade de solucionar o que ele denominou como “o mal chamado mercado laboral”, para que se consiga garantir a todas as pessoas condições dignas de trabalho.

Já o líder da República Dominicana, Danilo Medina, que recebeu do Equador a presidência pro-tempore da CELAC, afirmou que seu país fará o possível para que a CELAC seja um espaço ainda mais integrado de diálogo.

O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, que recentemente declarou estado de emergência econômica em seu país, também apelou à união entre os Estados para enfrentar a crise na economia, sugerindo a criação de um plano comum anticrise para a região.

Na Cúpula, em que participaram 33 países da América Latina e do Caribe, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos também se pronunciou sobre os avanços do processo de paz com as FARC que está em andamento com a mediação de Havana.

Ele anunciou que os Chefes de Estado participantes desta IV Cúpula da CELAC, decidiram convocar uma reunião dos seus ministros da saúde para conter o vírus da Zika. Santos se mostrou preocupado por causa da situação em seu país, onde mais de 15.000 pessoas já foram afetadas.

A presidenta Dilma Rousseff defendeu a integração entre os países da CELAC para enfrentar a crise econômica mundial. ​Além disso, ela também propôs uma ação de cooperação regional para combater o vírus da Zika.

Em entrevista coletiva, Dilma ressaltou que, para tratar essa questão, haverá uma reunião do Mercosul em Montevidéu, no Uruguai, na próxima terça-feira (2), além do encontro entre os Ministros da Saúde da CELAC que acontece esta semana.

A CELAC também designou nesta quarta-feira uma missão de chanceleres de 4 países do bloco – Equador, Costa Rica, República Dominicana e Bahamas -, para avaliar a situação eleitoral no Haiti, a pedido do governo do país caribenho. A informação foi divulgada em uma rede social pelo ministro das Relações Exteriores do Equador, Ricardo Patiño.

Com agências

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A luta continua!

 

 

Por: Helena Iono

Na noite de 22 de novembro, após os resultados eleitorais oficiais, pairou um silêncio mortal na Argentina, quase como um black-out, ou um toque de queda em tempos de guerra. Entre a tristeza profunda de 12,5 milhões que renderam o voto de apoio e um “sim” à  continuidade das conquistas sociais dos últimos 12 anos de governo popular e democrático de Néstor e Cristina Kirchner (votando a Scioli), e o silêncio de uma parte dos eleitores que completaram a vitória eleitoral de Macri com uma parquíssima diferença de 2,8%, concedida por uma espécie de “voto inseguro”, dos ludibriados, que provavelmente sentiam temor pelo futuro e que, mesmo após a vitória, vivem de incertezas e quiçá pensavam, sem festejar: “votamos no escuro, a um tipo disfarçado, sem propostas claras e enganosas. Será que demos um tiro no pé?”. Nenhum burburinho de alegria e de festa, salvo um punhado de gente no Obelisco para a imprensa mundial, entre balões e música no melhor estilo norte-americano, calculando como poder agora tirar proveitos pessoais, pisoteando o sonho dos oprimidos, dos trabalhadores, da consciente e culta classe média argentina por um país justo e soberano.

 

Mas, passado o momento emotivo, vamos aos fatos objetivos, compartilhando algumas reflexões de analistas argentinos que circulam após o pleito. Houve uma derrota eleitoral de Scioli da FPV, mas não uma derrota social, nem do projeto econômico-social e político criado e praticado nestes 12 anos. Os 48,6%, correspondentes a 12,5 milhões de votos, estabelecendo uns 700 mil de diferença em relação ao vencedor, e conquistando a maioria na Província de Buenos Aires (onde no 1o. turno perdeu o governo), e o governo de 15 províncias, são votos compactos, conscientes na defesa deste projeto, crescidos no seio de uma reação popular nestas últimas 2 semanas de campanha, frente à ameaça de retrocesso aos anos 90, que não poderá ser imposto sem métodos ditatoriais. A militância das várias agrupações da FPV, independentes, jovens, artistas, jornalistas, cientistas, ocuparam os vários pontos das cidades, parques, bateram de porta em porta, acionaram rádios e tvs comunitárias, fizeram panfletos e vídeos-spot, ocuparam redes sociais difundindo os pontos programáticos que explicitavam que Scioli era a continuidade de um projeto de empoderamento de um Estado democrático e inclusão social. Por outro lado, os 51,4% de Macri são votos de uma junção de partidos (PRO, Unen de L. Carrió, Radicais conservadores) de direita, da oligarquia e grupos financeiros, que se disfarçaram atrás da sigla “Cambiemos”(Mudemos), de palavras vazias, “todos unidos”, “paz e amor”, os do grande capital finaceiro, do neo-liberalismo dos 90, dos agentes da ditadura, do pró-Alca, da Aliança para o Pacífico, do anti-bolivarianismo. Para chegar a esta votação, usaram um marketing fabricado pelo Tio Sam, de que é possível mudar de liderança política, com novas caras “sorridentes”, sem mudar o projeto já existente; ocultou seu projeto neoliberal para enganar parte da nova classe média,  do comerciante e do lúmpen proletariado. São táticas padronizadas, da sedução e do engano, como Capriles Radonski na Venezuela que se disse continuador das missões sociais implementadas por Chávez, e seguidor de Lula, para ocultar seu projeto fascista.

Mas, a governabilidade de Macri será difícil; deverá se confrontar com uma feroz disputa de interesses internos e de poder. A sua intenção de retroceder o país às privatizações, aos acordos com o FMI e aos ajustes neoliberais (*), encontrarão um Congresso onde a FPV tem a maioria (na Câmara dos Deputados não faz quórum, mas tem a maioria; no Senado, faz quórum e tem maioria; podendo barrar algumas tentativas de retrocesso nas leis consolidadas), e nas ruas, bairros e fábricas, 12,5 milhões de mobilizados vão defender o já conquistado. A memória pelos 30 mil desaparecidos não se apaga. Macri deverá olhar por onde pisa. Já lhe puseram um pé no freio para não dar marcha ré:  jornalistas e trabalhadores do jornal “La Nación” contestaram o editorial de ontem em que chamava a não aplicar a lei contra lesa-humanidade que pune os repressores da ditadura. Macri, na primeira coletiva de imprensa, ao ser indagado, teve que dizer que continuará com os julgamentos.

 

Evidentemente, a cara nefasta dos planos de governo neo-liberal de Macri vão se manifestar mais rapidamente no plano da política internacional. Este governo, é uma ameaça à unidade latino-americana conquistada por Chávez e Cuba nos últimos anos, à solidificação de Mercosul, Unasul, Celac, Brics e à integridade dos governos progressistas e revolucionários na Venezuela e Brasil. Macri já se pronunciou pela aplicação da Carta Democrática para expulsar a Venezuela do Mercosul, alinhando-se com os golpistas venezuelanos. O resultado das eleições presidenciais na Argentina alteram as relações de forças na América Latina, reforçando no seu interior, os agentes desestabilizadores que provém da Europa EUA e Otan contra os países progressistas do Oriente Médio, Síria e Irã. Porém, a batalha não está vencida.  Não vai ser fácil a Macri manter uma política de enfrentamento com a Venezuela, pois já o Brasil e Uruguai se manifestaram contra a posição a Argentina nesse quesito do Mercosul.  No Irã acabam de se reunir, Putin, Maduro, Evo, com Khamenei para convênios de intercâmbio que injetam gás à unidade dos países que reforçam a resistência às guerras de ocupação e golpes reacionários. Tudo isso, no bojo de uma Rússia que com Putin lançou a ação na defesa da integridade do povo e governo democrático da Siria. A chamada “nova Argentina” não poderá apagar da noite ao dia os acordos econômicos com a Rússia e a China (que deram vida, graças as nacionalizações, ao transporte ferroviário argentino), ceder ao FMI e Fundos Abutres, sem desmantelar direitos sociais e enfrentar uma reação popular de proporções inimagináveis. Sem falar na bomba da política cambial e de desvalorização do peso que está por implementar; a oligarquia vibra com o fim das retenções às exportações, e as pequenas e médias empresas, temem o fim dos subsídios, o aumento dos preços com a desvalorização, pressão trabalhista por aumento salarial, e desemprego; e a ameaça ao fim das paritárias já agita o movimento sindical.

 

No cômputo das reflexões é preciso inserir os erros e as falhas que levaram a esta derrota eleitoral, que é um verdadeiro golpe. Este não assume a cara violenta como no golpe contra Allende em 1973.  É a época dos “golpe suaves”. O preâmbulo foi o constante ataque à imagem de Néstor que enfrentou a Alca, e Cristina que cortou as asas dos Fundos Abutres, instigado pela eterna e não erradicada aliança entre a mídia (Clarin, e La Nación, Canal telefisivo TN) e o poder Judiciário, evidenciada no caso Nisman. Apesar da implementação da “Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual” (Lei da Mídia) que limita o poder da mídia privada, a sua aplicação encontra dificuldades; uma recente decisão judicial da Corte Suprema rechaçou a apelação contra a medida cautelar que exime o Clarin de adequar-se a essa lei. Não obstante a acertada utilização da TV Pública e das cadeias nacionais para comunicar discursos e medidas presidenciais, e programas de informação objetiva e formação política como o 6,7,8, o poder e a guerra dos grandes proprietários midiáticos são implacáveis e não foram debelados. O papa Francisco, chamou acertadamente ao voto de consciência. Mas, a dificuldade em construir consciências é enorme como no Brasil onde encontramos várias semelhanças no comportamento psíquico-social de uma parte da classe média instrumentalizada pela direita. Seja na época de Hipólito Irigoyen, como de Perón, a nova classe média beneficiada pelas medidas de inclusão social, voltaram-se contra e foram base de golpes de direita. O mesmo ocorreu nesta eleição na Argentina, onde a era Kirchner reduziu a 5,9% o desemprego, desendividou o país e deu dignidade aos humildes, soberania e cultura. Não obstante, a nova classe média quer mais e oscila, sem a consciência do proletariado, envenenada pela campanha midiática do “medo”, do terror, da insegurança. Sectores como este, são midiaticamente induzidos ao racismo, ao egoísmo, e até a considerar obras culturais como a transformação do velho Correio Central em Centro Cultural Kirchner, com dezenas de salas de exposição, cursos, teatro e espaço infantil, espetáculos, totalmente gratuitos, possibilitando o acesso dos pobres à cultura, como gasto inútil do dinheiro público.  Paira no ar a dúvida do que ocorrerá com todos os patrimônios da Memória, como o Museu da ESMA, do Museu da Memória e Vida (ex- Mansão Seré, recentemente violada por fascistas). Não há dúvidas de que o povo argentino, saberá defender todas as conquistas dos 12 anos de dignidade: o subsídio universal por filho, o matrimônio igualitário, a lei de identidade de gênero, o das empregadas domésticas, a Aerolíneas Argentinas, a YPF, as ferrovias nacionalizadas e os trens chineses, a aposentadoria mais alta da A. Latina, os 118 netos e filhos de desaparecidos, o Fundo estatal das aposentadorias (AFJP), Tecnópolis, os 2 satélites nacionais, os programas infantis de Paka-Paka, o Canal “Encuentro”, o Museu da TV Pública, e o do Bicentenário, as “madres y abuelas de Plaza de Mayo”, a visita dominical livre na Casa Rosada, as Malvinas argentinas, etc…

 

Após estas eleições, muitas reflexões serão feitas. Porque, não obstante tudo isso, venceu o voto pela mudança-retrocesso. Pergunta-se se o reformismo, neste contexto mundial de crise capitalista, na Europa e no mundo, está chegando ao seu limite, e se é possível continuar indefinidamente avançando somente com a dependência a pleitos eleitorais? Pode-se enumerar algumas falhas: o descuido com a comunicação direta com o povo, através dos organismos de bairro, da base sindical, das escolas; e a mais profunda, que tem sido a ausência de medidas muitas de ruptura com o sistema capitalista, com o poder dos bancos, a falta do monopólio estatal do comércio exterior; tudo isso poderia ter avançado nestes últimos anos. É provável que estava no projeto de Cristina Kirchner e sua equipe, de aprofundar estas metas na próxima gestão peronista-kirchnerista com Scioli, com apoderamento popular, limpezas burocráticas e superação de carreirismos; relações internacionais decisivas com a Rússia e a China. Sem avançar em direção a uma estrutura econômica-político-institucional de ruptura do Estado em direção a um Estado Revolucionário, e real poder popular não há eleição que suporte um processo linear de avanço de um projeto profundo de transformação social. É hora de pensar em como os governos progressistas devem partir da democracia representativa à democracia participativa. Evidentemente, a crise mundial encurta os prazos, e a onda reacionária tenta impedir que todas as tarefas e metas revolucionárias se cumpram a tempo. Néstor e Cristina deixaram um legado e não se equivocaram jamais num ponto central: sem a unidade socialista dos povos e governos progressistas da América Latina e do mundo não há como edificar a soberania de nenhum país. Por isso, é fundamental que nas próximas eleições de dezembro na Venezuela toda a América Latina esteja atenta e apoie o triunfo do governo bolivariano de Nicolás Maduro. O povo argentino sofreu um golpe, mas tem memória e saberá estar em pé de luta e defender com força a sua dignidade e soberania.

 

  1.  Helena Iono

 

 

 

Helena  Iono

Colaboradora da TV Cidade Livre

(canal comunitário de Brasília)

 

(*) Mais sobre quem é Macri: “O capitão que conseguiu os votos”,  de Martin Granovsky publicado no jornal argentino Página 12, do dia 23 de novembro, e no Carta Maior http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-capitao-que-conseguiu-os-votos/6/35041

Ciclo de Cinema Patriótico na Embaixada da Venezuela em Brasília

Quer entender de uma vez o que significa “bolivarianismo”? Ou sobre os valores que movem os povos latinoamericanos? Começa amanhã em Brasília o Ciclo de Cinema Patriótico na Embaixada da Venezuela!

Bons filmes, de graça e acessíveis a todos os públicos:

 

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Confira no #SoundCloud a dica cultural da Rádio Cultura FM:

Um gole de Galeano

Fonte: Brasil de Fato

 

O escritor uruguaio Eduardo Galeano faleceu nesta segunda-feira (13), aos 74 anos. O autor do consagrado livro “As veias abertas da América Latina” conversou no ano passado com a reportagem do Brasil de Fato. Em pauta, futebol, governo Dilma e memórias da ditadura.

Confira:

 

07/07/2014

 

Francielly Baliana e Diego Torres

de Montevidéu (Uruguai),

especial para o Brasil de Fato

 

Montevidéu tem seus próprios ventos, que se parecem, em muito, com crônicas de cidade pequena. Além de estreita, antiga. Onde prédios velhos se tocam no alto do céu e olhos se cumprimentam nas praças regadas de folhas. Cafés que falam muitas línguas recebem durante o dia linguagens de todas as partes. São gestos de histórias vizinhas contracenando com sentimentos interioranos que a capital uruguaia abriga em si. Não deixam de captar os olhares, as vozes, as vidas.

Uma das ruas mais antigas de Montevidéu é também a que abriga o Café Brasileiro, um dos espaços mais charmosos de Ciudad Vieja, com arquitetura típica do século 19. Ali, onde o vento do lado de fora parecia fazer a curva para o continente, foi que esperamos pelo encontro com Eduardo Galeano, um dos maiores escritores de nossa América Latina.

Enquanto contávamos os minutos para sua chegada, as fotografias nas paredes revelavam a proximidade que o autor tinha com o local. Eram inúmeras fotos suas. Não seria, então, coincidência estarmos ali, em um lugar escolhido por ele, naquela manhã de sábado. Devia ser seu mais aconchegante quintal, no qual nos acomodamos logo, sem saber se pelo apreço visual da madeira fria que estruturava o local, ou pelo cheiro de um café tão tipicamente próximo ao nosso. As duas coisas, talvez.

Galeano chegou acompanhado de sua filha Florência, e entrou sorrateiro, sem que escutássemos o barulho de seus passos. Quando nos demos por encontrados, tomou-nos as mãos e cumprimentou-nos carinhosamente.

“Veja se isso aqui não parece um romance policial”, atestou. “Quando olhei vocês dois aqui sentados, disse logo à Florência: são eles!”, sorriu com um humor de quem se sente em casa. Não demoramos a deixar nossos olhares curiosos de tudo focarem em seus olhos azuis, capazes de iluminar todo o ambiente.

Antes mesmo de o café chegar, contamos a ele o motivo que nos levara ali – uma tenra admiração junto à vontade de estabelecer conversa com vozes e olhares. O que falaríamos a um jornalista que já havia concedido inúmeras entrevistas a tantos veículos? Que a conversa fluísse, pois. Que pudéssemos assentar em um sábado de sua vida e compreender o que as histórias e a despretensão de estar ali, junto a ele, nos trouxessem às mãos.

O primeiro gole de cappuccino veio quando comentamos sobre as propagandas políticas que vimos a caminho do encontro, e sobre as eleições presidenciais que também acontecerão esse ano no Uruguai. Galeano não demorou a enfatizar suas percepções sobre o assunto, apontando, com os dedos pouco acima da mesa, para as ruas que cercavam o Café.

“Eu não entendo a política uruguaia”, afirmou. “A divisão partidária me confunde. Aqui, dentro de um partido que se assume como ‘esquerda’, existem frentes conservadoras e outras de extrema esquerda que disputam entre si. Então, antes do embate eleitoral, existe uma discussão de quem é que lidera o partido. Nunca vou entender isso”,completou, afirmando ainda a dificuldade que há em se estabelecer uma linha de governo dessa forma.

Governo Dilma

Comentamos o quanto também é dificultoso no Brasil estabelecer identidade com um dos mais de 30 partidos existentes. “Eles deixam complexo o que é extremamente simples”, retomou, interpedisselando a si mesmo com a cabeça, colocando mais um gole do seu cappuccino sem açúcar na garganta. Sobre o governo de Dilma Roussef, afirmou que é um bom governo, de forma geral.

“Teve muitos erros e acertos, mas uma coisa é fato: o governo Dilma é claramente uma continuidade do governo Lula, o que não é ruim. Continua com boas políticas sociais e de base, no entanto, por conta do perfil de política do PT, que vem mudando nas últimas décadas, Dilma se preocupou demasiadamente com o modo de fazer política através das muitas alianças, e isso pode ter atrasado medidas importantes à população”, destacou.

Quando se tratou de política, o autor de As Veias Abertas da América Latina não ousou deixar de lado o peso histórico das ditaduras militares que se espalharam pelo continente no século 20.

Jornalista exilado por duas vezes, Galeano esteve no Brasil em anos de chumbo, quando trabalhava para um jornal de Montevidéu, e seu editor pediu que escrevesse sobre a realidade social brasileira com a ditadura.

“Ele pediu que eu fosse ao Brasil, mas, por ter ido diversas vezes ao país, disse que o faria do Uruguai mesmo. Insistiu e eu fui até o Rio de Janeiro. Queria que eu visse o modo como as pessoas viviam a ditadura nas ruas. O que mais me chamou a atenção foi uma frase em um muro, que pedia que o governo brasileiro ‘fosse logo entregue nas mãos de Charles Elbrick’, embaixador estadunidense na época”, assinalou, rindo do quanto aquela frase era certeira ao resumir suas impressões sobre aquele período. “Aquilo materializava a insatisfação diante dos rumos que o país tomava”, concluiu.

Observávamos a naturalidade com que Galeano enunciava. Era terno ao fazê-lo. Não havia dúvidas de que sua sutileza com as palavras, expressa principalmente em O Livro dos Abraços, que contou-nos ser seu preferido, também se refletia na calma e tranquilidade de sua fala.

Ao se tratar de anos ditatoriais, contamos o quanto veículos brasileiros têm trazido à tona as memórias da resistência com relação ao regime militar. Citamos o exemplo das histórias que retratam a realidade das universidades brasileiras na época e o quanto esses espaços, que sempre foram considerados centros de resistência e formação ideológica social, foram claramente reprimidos pelo governo.

Havia temor ante o crescimento de ideias opositoras, o que culminava na infiltração de pessoas ligadas à ditadura no espaço universitário e a exclusão de alunos e professores considerados rebeldes. Hoje, a sobrevivência destes locais representa um símbolo de resistência àquele governo. Sobre isso, relatou a maneira similar com que a ditadura uruguaia agiu naqueles anos.

“A memória tem mãos”

“A ditadura uruguaia agiu de forma parecida. Este Café, por exemplo, foi reconstruído pelas mãos da memória. Porque a memória tem mãos. Por três vezes, esse espaço foi destruído pela ditadura. Era considerado um local de típico encontro da classe intelectual daqui. Vinham com um caminhão durante a noite e desmanchavam o lugar. Arrancavam os pisos, retiravam as mesas e cadeiras, roubavam os lustres. No entanto, os frequentadores sempre tinham a disposição de reconstruir o Café através de suas lembranças em fotos e fatos”, contou-nos com brilho nos olhos que ora miravam em nós, ora nas paredes com fotografias de velhos conhecidos.

Lembrou-se também de uma vez que esteve em Leningrado – sua filha o corrigiu atentando ao atual nome, São Petersburgo –, quando as pontes da cidade, que foram destruídas pela guerra, estavam sendo reconstruídas por moradores através de fotografias. A memória parecia dar-lhe as mãos, ali.

O suspiro forte das lembranças abriu espaço para que nos entregasse dois de seus livros, Mulheres e Dias e noites de amor e de guerra, que trouxera especialmente para nos presentear. Assinou com doçura. “Abraços, Galeano”, desenhando um porquinho abaixo de seu nome. Também fez isso nos livros que trouxemos para receber sua assinatura.

Quando perguntado sobre a escolha desse animalzinho, não demorou a dizer que “alguns escritores escolhem dragões e serpentes como mascotes de suas obras e assinaturas. Eu escolhi o porquinho, pois ninguém o havia escolhido. Gosto do porquinho”. Sua graça fez com que todos à mesa sorrissem.

A ele, entregamos presentes escolhidos com cautela. O livro Deus Foi Almoçar, do escritor paulistano Férrez, e o filme O Som ao Redor, do diretor recifense Kléber Mendonça Filho. Não poderíamos deixar o autor de Futebol ao Sol e à sombra partir sem indagá-lo sobre uma de suas maiores paixões. Qual seria, então, sua opinião sobre o futebol sul-americano?

Futebol

Galeano foi preciso no chute. “Ele continua sendo uma característica muito forte de nossa cultura, mas as atuais condições do esporte no mundo, baseadas na comercialização do futebol, fazem com que nossos jogadores sejam vendidos muito cedo, o que provoca pouca contribuição ao nosso modo de jogar”, respondeu. Completou dizendo que, no entanto, os jogadores sul-americanos têm um histórico de mudanças através de pequenas revoluções.

“Há um movimento no Chile em que os jogadores se uniram e começaram a fazer parte da tomada de decisão na liga. O Bom Senso Futebol Clube também é outro exemplo. O futebol não pode se render à política de interesses que atualmente dirige os clubes”, reiterou. Comparou esse exemplo ao da Democracia Corintiana, que surgiu na década de 1980, liderada por Sócrates, “que era muito meu amigo”, ressaltou. Finalizou com uma pergunta que um dia fizeram a Sócrates sobre essa amizade, que também levantara nossa curiosidade. “Sócrates respondeu: ‘O Eduardo fala de futebol e eu falo de política. É simples’”, sorriu com a intimidade contada.

O relógio batia meio-dia, mas o charme matinal uruguaio não nos tirava o sentimento de que ainda pareciam nove da manhã. Galeano aproximou-se da mesa tanto quanto se achegou a nós. Perguntou-nos onde vivíamos no Brasil. “Vivemos entre São Paulo e Rio de Janeiro”, respondemos. Como conviesse, perguntamos se lhe agradavam cidades como as nossas, mas nosso Eduardo foi enfático ao negar o apreço às grandes metrópoles.

“Não gosto de cidades grandes, como São Paulo. Elas têm caos demais. Gosto de Montevidéu porque consigo compreendê-la. Não se pode compreender uma cidade como São Paulo. Por isso escolhi viver aqui e sempre para cá voltar”, disse. Entreolhamo-nos pelo tempo em que o termo compreensão ressoou no ambiente.

Eduardo foi se levantando com os presentes em mãos. Despedimo-nos com um cumprimento ainda mais carinhoso que o da chegada. “Ainda vamos nos rever”, disse, por fim. “As mãos da memória sempre trabalham por encontros assim”, quisemos entender. Agradeceu com os olhos. Agradecemos. Não como quando um livro termina por nos inspirar, mas, quando um novo nos segura logo na primeira página. “Até breve”, sentimos.

Guantánamo: ex-presos falam sobre a vida no Uruguai após três meses de liberdade

Reportagem da Agência Brasil

O ex-preso de Guntánamo Abdul Ourg faz uma oração na casa onde vive em Montevidéu / Divulgação: Agência Brasil

 

Sorridente, de camisa quadriculada, Abdelhadi Faraj poderia se passar por turista, em férias no Uruguai. No computador da antiga casa de Montevidéu, ele mostra as fotos da viagem à cidade histórica de Colônia, a convite de um empresário local. O sírio, de 34 anos, aparece junto com seus companheiros em uma fazenda, na piscina, compartilhando um churrasco e sobrevoando, em um jatinho particular, o país que o acolheu. Nem parece que Abdelhadi vive em liberdade há apenas três meses, depois de passar um terço da vida em Guantánamo – a prisão militar norte-americana em Cuba, para onde foram levados centenas de suspeitos de terrorismo, depois do ataque de 11 de setembro de 2001 às torres do World Trade Center, em Nova York.

Detido em 2002, enquanto tentava cruzar a fronteira do Afeganistão com o Paquistão, ele poderia ter saído de Guantánamo em 2009, quando o governo americano – apos reexaminar seu processo – determinou a transferência. “No entanto, permaneci outros cinco anos nessa prisão, desesperado ao ver que meu próprio país – a Síria – mergulhava em uma sangrenta guerra civil, tornando a minha repatriação impossível”, conta Abdelhadi, em carta de agradecimento que publicou no jornal El Pais, assim que desembarcou em Montevidéu em dezembro. “Se não fosse pelo Uruguai, eu ainda estaria naquele buraco negro.”

Abdelhadi é um dos seis prisioneiros de Guantánamo, libertados pelos Estados Unidos e acolhidos pelo governo uruguaio como refugiados. “Nem consigo acreditar que estou aqui”, disse, em entrevista à Agência Brasil. Três meses em liberdade foram o suficiente para que ele se atualizasse: abriu conta no Facebook, aprendeu a dirigir com um amigo e instalou no computador um programa gratuito para aprender espanhol. Ele quer trabalhar como açougueiro – profissão que exercia antes de ser preso. Mas a inserção na sociedade leva tempo – especialmente em um país estranho, longe da família.

“Eu sei cortar a carne de acordo com o rito muçulmano, que é diferente do jeito que fazem aqui”, explica Abdelhadi. “E ainda não me recuperei do tempo que passei em Guantánamo: tenho dor de estômago, asma e me sinto cansado”, diz.

Nesta semana e na outra, os seis ex-prisioneiros – quatro sírios, um tunisiano e um palestino – serão examinados no Hospital Militar (o mesmo para onde foram levados assim que chegaram a Montevidéu). O próximo passo será reacomodá-los: até agora, o grupo estava sendo acompanhado pela central sindical uruguaia PIT-CNT, que emprestou um antigo casarão para alojá-los. Mas o espaço era pequeno e dois deles foram levados a um hotel, até que o Serviço Ecumênico para a Dignidade Humana (Sedhu) – uma organização dedicada a refugiados – assuma o caso deles e encontre um apartamento para cada um.

O sírio Jihad Diyab tem outras preocupações, além da saúde e de sua instalação no país. É o único do grupo que é casado. Um de seus filhos morreu há pouco mais de um ano, quando ele ainda estava em Guantánamo. Os outros três e a mulher fugiram da guerra na Síria para a Turquia, mas acabam de ser devolvidos a seu país e, segundo Diyab, correm risco de morrer. Ele pediu permissão para trazê-los ao Uruguai, mas ainda espera a resposta da Cruz Vermelha e a resolução de trâmites internacionais.

No mês passado, Diyab viajou de improviso a Buenos Aires, onde vestiu o uniforme laranja dos prisioneiros de Guantánamo para falar a um pequeno grupo de jornalistas de meios alternativos argentinos. Ele contou que foi torturado, que fez greve de fome e que processou o governo norte-americano, depois que os carcereiros enfiaram um tubo no seu nariz para alimentá-lo à força. Diyab (cuja mãe é argentina) pediu a Argentina que siga o exemplo do Uruguai e se ofereça para acolher os prisioneiros que continuam em Guantánamo – apesar da promessa de campanha do presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, de que iria fechar a prisão em Cuba.

Tanto Diyab quanto o tunisiano Abdul Ourgi consideram que – apesar das boas intenções – a situação dos prisioneiros em Guantánamo é pior com Obama do que com seu antecessor, George Bush. “Antes, estavam começando a libertar muitos de uma só vez, mas com Obama estão liberando prisioneiros a conta-gotas”, disse Ourgi, durante a entrevista à Agência Brasil.

De todos os ex-prisioneiros no Uruguai, Ourgi seria o mais perigoso, na avaliação do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Ele é citado como um “expert em explosivos”, que teria conhecido Osama Bin Laden e recebido, com antecedência, informações sobre seus planos para atacar as torres do World Trade Center. Ourgi sorri quando vê o documento: diz que perdeu um pedaço do polegar e tem cicatrizes no corpo, porque estava nas montanha afegãs, bombardeadas pelos norte-americanos, que queriam destruir o quartel-general do grupo terrorista Al Qaeda. “Mas o resto do que contam não é verdade”, garante. “A prova é que o próprio [ex-presidente do Uruguai] Jose Pepe Mujica contou que recebeu um documento do governo dos Estados Unidos, assegurando que nenhum dos ex-prisioneiros no Uruguai é terrorista ou representa ameaça.”

Mujica fez uma visita de surpresa à casa do PIT-CNT, poucas semanas antes de concluir seu mandato presidencial, no dia 1º de março. “Ele nos contou que foi guerrilheiro tupamaro, que esteve preso 13 anos e que passou dez deles isolado em um poço”, conta Ourgi. O tunisiano, de 49 anos, assistiu pela televisão à cerimônia de posse do sucessor de Mujica, Tabaré Vázquez.”

Ourgui esteve no Brasil por algumas horas. Foi durante uma recente excursão a Chuí, uma cidade uruguaia na fronteira. “Cruzamos a rua para o Brasil, mas não fomos longe – ainda assim deu para perceber que [a vida no] Brasil é mais barata que no Uruguai”, disse.

Ter como se sustentar é o que preocupa Ourgi agora. “Durante 13 anos, eu só pensava em sair de Guantánamo – agora, tenho que me preocupar com a comida, a roupa, as contas, em um país caro”. Ele gostaria de trabalhar de cozinheiro – e quem sabe, no futuro, abrir um restaurante árabe. “Mas não é tão fácil quanto parece – 90 dias são pouco tempo para se acostumar à liberdade, se recuperar de Guantánamo e buscar emprego”, disse. “Mas não podemos ficar sem trabalhar, porque recebemos 15 mil pesos uruguaios [R$ 1,7 mil], o que é pouco em relação ao custo de vida uruguaio”, disse. Se tudo der certo, Ourgi quer trazer ao Uruguai a mãe – que não vê há 25 anos.