Numa escola em Havana: não à infância violentada

Numa escola em Havana (Conducta no título original) é um filme que chega justamente a tempo para enriquecer a importante discussão, no Brasil, sobre a redução da maioridade penal – decisão determinante para o protagonismo das nossas gerações futuras.

Léa Maria Aarão Reis*, na Carta Maior

Cena do filme com os atores Alina Rodriguez e Armando Valdès FreireCena do filme com os atores Alina Rodriguez e Armando Valdès Freire

O excelente segundo filme do cineasta cubano Ernesto Daranas – autor de outro longa metragem, Los dioses rotos -, em colaboração com um grupo de sete alunos da Faculdad de Cine del Instituto Superior de Arte (ISA), de Havana, é mais uma produção cheia de vida do novíssimo cinema latino-americano de língua espanhola que desponta com força e tem na Argentina o seu carro chefe consolidado.

Foi indicado por Cuba para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, e para o Prêmio Goya. Ganhou o Festival de Cinema de Havana e foi recebido com entusiasmo nos festivais de Bogotá e de Portland, EUA. No eixo Rio – São Paulo o filme, em cartaz, faz sucesso, e o estudante cubano de 15 anos, Armando Valdès Freire, hoje, é uma estrela nacional na sua terra. A interpretação do personagem central de Conducta, o Chala, é vigorosa e surpreende pela excelência.

Daranas agora repete a mesma temática do seu primeiro filme. Fala de violência e lealdade, com um recorte da marginalidade na sociedade de Havana – no caso do filme, o uso de drogas e as rinhas clandestinas das cruéis lutas de cães. “Procuramos trazer para o centro da conversa a marginalidade,” disse o cineasta em entrevista. ”É uma problemática constante nas nossas vidas embora se expresse sutilmente. Mas temos que encarar os olhos do nosso país, hoje, para podermos falar com seriedade desta Cuba tolerante, participativa e inclusiva cujo reflexo, no filme, é a sala da aula da professora Carmela.”

A sala de aula de Carmela – encarnada por outra atriz excelente, Alina Rodriguez, falecida há dois meses – é onde Chala, de 11 anos, se sente bem. Nela, impera a liberdade e diversidade de expressão, a palavra, o afeto. O menino é um líder nato, tem carisma, é inteligente, um talento nato e bom aluno. Em sua casa, em Habana Vieja, um dos bairros mais pobres da capital cubana, vive em um mundo de violência na companhia da mãe solteira viciada em drogas e alcoólatra, e cuida dos pombos que vende, e de cachorros de rinha: trabalho brutal pelo qual é remunerado, e vem a ser a base do seu sustento econômico e da mãe.

Quando a professora, já de idade, sofre um enfarto e é obrigada a se ausentar da escola durante vários meses, sua jovem substituta, despreparada para lidar com a personalidade insubordinada do garoto, o transfere para um reformatório como manda a inflexibilidade do sistema. As famosas regras de conduta existentes em todas as partes que ignoram a essência humana de cada indivíduo.

Ao voltar, a professora Carmela não acredita nem aceita a solução do reformatório para o caso do garoto, como crê a escola e as normas inflexíveis da superestrutura. A relação entre a professora de 70 anos – que viveu na pele as diversas e difíceis fases pelas quais passou o seu país – e o menino de rua que nela encontra amor e cuidado se torna cada vez mais estreita.

Contornando com habilidade rastros de pieguice da história, o roteiro do filme, do próprio Daranas, não entra em considerações sobre as virtudes nem os vícios do sistema educacional de Cuba, considerado e reconhecido pela ONU, aliás, como exemplar e comparável ao da Finlândia e da França, onde a profissão dos professores é tratada com dignidade. Mas aponta a necessidade do estado intervir, sim, como faz a emblemática professora Carmela quando diz à representante inflexível estatal: ”O professor deve saber o que se passa com seus alunos lá fora, na rua. Se você não entender isto, não compreendeu nada.”

Sala de aula e rua pertencem ao mesmo conjunto de vivências que podem sugerir assistência às crianças em risco social – porém de modo criativo, flexível e com todo cuidado, proporcionando atenção amorosa e proteção quando estas faltam à infância e à adolescência do imenso contingente de garotos pobres das periferias das cidades latino-americanas engolfados pela violência do ambiente e das imensas desigualdades econômicas que presenciam no seu dia-dia e em que vivem.

Assim como ocorreu, quando esteve aqui, com o escritor Leonardo Padura, de O homem que amava os cachorros, Ernesto Daranas, com o seu vigoroso filme, parece não ter receio das tentativas de ser utilizado e manipulado pelas forças de direita que se esmeram na demonizarão contínua – hoje, já ridícula – de qualquer aspecto que se relacione com a vida em Cuba. Ele nos fornece um painel crítico, porém honesto, da atual e complexa realidade socioeconômica do seu país nesta nova fase, da transição, da travessia para uma abertura maior para o mundo.

Numa escola de Havana vem afirmar a tradição cinematográfica cubana, ainda pouco conhecida fora, com suas plateias fieis, (há cinemas por todas as províncias da ilha) e cineastas formados pela célebre Escuela de San Antonio de los Baños onde vários diretores brasileiros lecionaram, e do ICAIC, o Instituto Cubano de Radio y Televisión.

“As inquietações que animam Conducta vêm das experiências dos garotos que trabalham no filme, moradores, eles próprios, dos bairros de Habana Vieja e Serrano. Outras vêm de reminiscências autobiográficas como a minha loucura, quando menino, de nadar até a boia, na baía, defronte ao Malecón,” diz o diretor. Experiências, travessuras e transgressões de qualquer criança. Seja no Bronx, no Capão Redondo, na Maré.

Em suma: é conveniente que o que se passa numa escola da capital cubana sirva de informação aos docentes, aos professores. O filme poderia ser apresentado em todos os sindicatos e órgãos de classe e seguido de debates e discussões, o que fará robustecer e atualizar a reflexão daqueles que conduzem as ações nas salas de aula das escolas públicas e privadas, confrontados como estão agora com a nova realidade ameaçadora da redução da maioridade penal – criminosa forma de violação da infância e da adolescência.

Em busca de alternativas de cooperação #UE-CELAC

Fonte: Cuba por Siempre

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 A II Cúpula Acadêmica CELAC-União Europeia (UE) começou nesta segunda-feira, a fim de ampliar e aprofundar o espaço para o ensino superior, a ciência, a tecnologia e a inovação.

O encontro, ocorrido antes da II Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC)  e UE nos dias 10 e 11 de Junho, incentivou o trabalho conjunto para avançar e consolidar estas iniciativas em matéria de ensino superior.

Neste contexto, Cuba, presente no encontro na capital da Bélgica, clamou pelo reforço na cooperação entre as universidades dos países da CELAC e da UE.

“Queremos transcender da teoria para a prática e que possamos concretizar mais projetos em áreas de interesse comum”, declarou o reitor da Universidade da província cubana de Camagüey, Santiago Lajes Choy, em sua intervenção durante o fórum.

Enquanto a reitora da Universidade Agrária de Havana, Maria Irene Balbín, referiu-se às possibilidades deste encontro para promover a cooperação em ensino superior, a formação de profissionais, a investigação e a inovação tecnológica.

Roberto Escalante, secretário-geral da União de Universidades da América Latina e do Caribe, disse que ambas as regiões têm realidades diferentes, mas existem áreas de interesse comum, como a luta contra as alterações climáticas e pela segurança alimentar.

A Cúpula Acadêmica possibilitou para as comunidades acadêmicas das duas regiões, trabalharem a fim de avançar e consolidar as propostas geradas na Cúpula anterior, realizada em janeiro de 2013 em Santiago do Chile.

Nas linhas traçadas na capital chilena, estão propostos quatro grupos de análise temática, entre eles o fortalecimento da integração birregional dos sistemas de educação superior, que incluem subtópicos como os valores universais e a diversidade cultural. Outra linha é a promoção da integração birregional dos sistemas de pesquisa científica, tecnológica e de inovação, centrada na universidade como promotora da inovação e da criatividade, com foco no desenvolvimento sustentável.

A cooperação birregional entre as instituições de ensino superior e suas relações com a sociedade, particularmente com o setor produtivo; a inovação e os direitos de propriedade intelectual; são outros dos eixos. Além disso, as tecnologias como facilitadoras e promotoras, bem como o papel social das universidades no século XXI. Da mesma forma, as ligações entre a comunidade acadêmica e as políticas públicas, incluindo aspectos como a educação para a inclusão social: pedagogia pré-escolar e pré-universitária, a formação de professores e a formação permanente.

Os resultados dessas deliberações serão apresentados aos Chefes de Estado e de Governo durante a II Cúpula da CELAC-UE através de um documento que conterá as ideias e propostas da comunidade acadêmica, com vistas a avançar neste espaço comum e consolidar a parceria estratégica birregional.

Esta semana, Bruxelas é o palco onde a região latinoamericana e caribenha, juntamente com a União Europeia, pretendem dar um novo impulso em suas relações, em um contexto muito diferente ao de 15 anos atrás.

Aproximadamente 40 Chefes de Estado e de Governo e delegações de alto nível de 61 países devem participar desta cúpula, que se realiza no Justus Lipsius, sede do Conselho da UE. (Cubaminrex / PL)

Tradução: Juliana MSC

“Unamo-nos pela Educação Pública”

No dia 23 de setembro de 2014, realizou-se em Buenos Aires, com apoio do INCAA, no cine Gaumon, o encontro da “Internacional da Educação para a América Latina (IEAL)”, encerrando sua campanha “Unamo-nos pela Educação Pública” para a região latino americana. Outras regiões desta Internacional realizaram o encerramento da campanha, começando por Sidney (Austrália), continuando em Nova Delhi (India), Pretoria (África do Sul) e Bruxelas (Bélgica), e concluíram, hoje, a correspondente à América Latina, em Buenos Aires, antes de ir a Nova Iorque. Quatrocentos sindicatos do mundo inteiro, 30 milhões de afiliados de 141 países visam conseguir da ONU uma declaração para o milênio de que a educação não é uma mercadoria, e que o Estado deve garantir a sua sustentação.
Esta reunião contou com a participação massiva de professores congregados pelas organizações CTERA, CTA, Suteba e outros que têm levado uma batalha contínua na defesa do ensino público na Argentina. O ato iniciou com uma apresentação musical da orquestra infanto-juvenil San Francisco Solano Quilmes, uma das dezenas que proliferam nos bairros pobres da Argentina, com a mesma concepção venezuelana do maestro José Abreu, que tem retirado da marginalidade social milhares de crianças. Antes de se iniciarem as apresentações e intervenções das delegações foi veiculado um vídeo com vários representantes da sociedade argentina na defesa do ensino público. Entre os vários representantes internacionais e argentinos intervieram, Fred van Leeuwen, Secretario General de la IE, Sonia Alesso, Secretaria adjunta da CTERA, Fabian Felman (CEAD), Pedro Sanchoren, além de dirigentes sindicais brasileiros como Fátima da Silva (vice-presidenta da IE para A. Latina), Roberto Leal, Gil Vicente Reis de Figueiredo, o cientista político,
Emir Sader, foi convidado e conferencista especial deste evento, por assíduo participante deste movimento e reconhecido defensor do ensino público latino-americano, como se vê no vídeo a seguir (cobertura da TV Cidade Livre, canal comunitário de Brasília), condenando a ideologia mercantilista na educação: “não haverá democracia social enquanto a educação pública não seja hegemônica”. No mesmo, Emir Sader não perdeu a oportunidade para analisar a conjuntura atual no Brasil e fazer a defesa da candidata Dilma Rousseff à presidência da República no próximo dia 5 de outubro, o que contou com ovação do público argentino aí presente. Citou progressos sociais no governo atual, o aumento de universidades realizado desde Lula, bem superior ao período de FHC; e as novas metas de destinação de parte do Pré-sal na educação e saúde; alertou sobre os riscos para o Brasil e o retrocesso que significaria nas políticas públicas, que inclui o programa “mais médicos” (do qual participam médicos cubanos), e as relações internacionais atuais de integração com a América Latina, o advento da candidata Marina Silva (aliada a multinacionais norte-americanas e europeias), que entrou em cena após o suspeitoso acidente aéreo que levou à morte do ex-candidato Eduardo Campos. Ao mesmo tempo, acenou a provável vitória de Dilma Rousseff nas eleições. Veja no vídeo de cobertura da TV CIDADE LIVRE, o Canal Comunitário de Brasília, presente no evento.
Helena Iono
TV CIDADE LIVRE
Parte 1

Parte 2