João Daniel defende investimento em Porto Mariel: “Motivo de orgulho”

O deputado João Daniel (PT-SE) discursou na terça-feira (1º) para analisar os investimentos do BNDES realizados fora do nosso Brasil, entre eles o Porto de Mariel, em Cuba. Para ele, é motivo de orgulho que um dia o Brasil tenha tido um Presidente da República, referindo-se ao ex-presidente Lula, que pensasse nos ideais daqueles que lutaram e deram a vida para que a “grande América” e os países pudessem ter o mínimo de integração.

“O investimento feito pelo BNDES e pelo Brasil, a empréstimo, por meio do qual mais de 400 empresas brasileiras trabalharam e construíram o Porto de Mariel, representa um investimento de um Governo que teve um pensamento voltado para os grandes projetos, para a integração e, em especial, para a engenharia nacional brasileira. Vá a qualquer clube de engenharia do Brasil e questione sobre as empresas brasileiras que construíram fora do nosso País, a exemplo do Porto de Mariel. Vão dizer que isso é pensamento de um Governo que pensa no País, na integração, em especial, na nossa indústria, na nossa engenharia e nos conhecimentos do nosso povo e do nosso País”, enfatizou .

João Daniel lembrou que, ao longo da História, Cuba foi isolada por conta de um bloqueio econômico injusto. Mas os Estados Unidos reconheceram o erro e hoje possuem uma relação com Cuba. “O investimento que o Brasil fez é da mais alta dignidade. Cuba, é um exemplo de solidariedade para o mundo. É um exemplo para os povos. Cuba levou médicos para todos os continentes, para todos os países em guerra. Enquanto o imperialismo mandava soldados, mandava bombas e mandava destruir, Cuba foi para os quatro cantos do planeta levar solidariedade. E um dos exemplos está aqui, com o programa Mais Médicos, em nosso País”, reiterou o deputado do PT. Por fim, João Daniel defendeu que o Brasil continue investindo em outros países, como também no nosso País.

Fonte  PT na Câmara

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Médicos cubanos ganham preferência no Brasil

Uma recente pesquisa revelou que 87% das pessoas que são atendidas pelos médicos cubanos elogiaram a atenção e a qualidade do atendimento; Na média, a nota recebida pelos profissionais estrangeiros foi 9.

Erikson Walla

Unidade de Saúde da Família de Cajazeiras XI, manhã da última segunda-feira de agosto. Uma escada estreita leva ao pouco iluminado 1º andar, onde está um dos cômodos mais procurados no local: o consultório de número 5. A porta branca da sala, fechada até 2013, é aberta, desde então, muitas vezes ao dia. Observa-se, porém, um intervalo de tempo significativo entre um girar de maçaneta e outro. Neste ínterim de abre-fecha-abre-fecha, com quase nenhuma variação, a cena se repete: após a saída de um paciente, um homem pardo e de meia idade surge, sorridente, de prontuário na mão, para um sonoro anúncio de quem é que será o próximo a entrar. O nome de quem anuncia está em uma placa fixada na frente da porta: “Dr. Rafael – Médico”.
A fila, do lado de fora da sala, é grande. À espera está a vendedora Eurides Silva, de 26 anos, que soube da boa fama do médico e resolveu tentar uma consulta com ele. Queria falar do seu problema na tireoide. Como não havia marcado previamente, esperou todos terminarem para ir pedir um atendimento extra a Rafael. E conseguiu. O médico parecia não se importar com os poucos minutos que faltavam para a hora do almoço. Com o mesmo sorriso, abriu a porta para Eurides e para, pelo menos, mais três outras pessoas que, certamente, não arredariam dali sem conseguir falar com ele. “Normalmente, eu tenho que ‘brecar’ e pedir às pessoas pra voltar depois”, afirma Elzanete Mangueira, gerente da unidade de saúde.

Elza, como é mais conhecida, não diz com um tom autoritário. A intromissão nos atendimentos do médico é cordial e é uma maneira de tentar poupá-lo de uma excessiva carga de trabalho, até porque, na unidade, há mais outros três médicos. “Aqui, temos uma cota para determinados atendimentos. Dr. Rafael, por exemplo, deveria atender por dia 14 pacientes e mais três ou quatro emergências, mas, se deixar, ele atende muito mais. Ele não atende pela agenda, mas pela necessidade do paciente. Ele não quer deixar voltar, mas a gente sabe que isso nem sempre é possível porque é humanamente impossível um médico atender a 20 ou 30 pessoas em um dia. Se deixar, ele atende”, completa a gerente.

O que justifica a fama e a grande procura pelo médico não são os atendimentos extras, mas o que acontece lá dentro da sala, quando a porta se fecha. Com a cadeira do paciente posta ao lado da mesa, Rafael cria um clima favorável à proximidade e à intimidade com quem o procura. Durante a consulta, ouve mais do que fala. Quer saber dos pacientes como é a alimentação, qual o histórico médico da família, qual o modo de vida que leva. Pega na mão, toca o rosto, examina minuciosamente. Na vez de Eurides, pegou um bloco de papel e uma caneta e desenhou a glândula da tireoide para mostrar à vendedora. Ele queria que ela entendesse o funcionamento do sistema endócrino e como o problema na tireoide se desenvolveu. Eurides entendeu direitinho e saiu encantada. “Os outros [médicos] nunca fizeram como ele”, declarou.

Dr. Rafael, de sobrenome Villa, é cubano. Chegou ao Brasil em 2013, junto à primeira turma que partiu de Cuba para a missão de integrar a etapa inicial do programa ‘Mais Médicos’, do Governo Federal brasileiro. A iniciativa surgiu diante do grande déficit de profissionais de medicina no país, com o objetivo de ampliar emergencialmente o atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente nos rincões do Brasil, e investir na formação de novos profissionais. Naquele período, o Ministério da Saúde (MS) revelou que faltavam 54 mil médicos no Brasil. A média era de 1,8 profissionais para cada grupo de mil habitantes. Para efeitos comparativos, a média da Inglaterra era de 2,7 para mil, segundo o MS.

A recepção não foi boa. Rafael e os conterrâneos chegaram sob vaias e protestos, principalmente vindos de colegas, médicos brasileiros. Um dos episódios mais tensos aconteceu na chegada a Fortaleza (CE), quando um grupo dos profissionais locais chamou os cubanos de ‘escravos’ e ‘traidores’. Em Salvador (BA), onde Rafael desembarcou, a recepção foi calorosa, houve até um grupo de apoio, mas as notícias do que acontecia em outras cidades chegavam aos ouvidos de todos. “Foi algo muito ruim. Somos tão médicos como eles e não viemos aqui para tomar postos de trabalho. Viemos ajudar a todos, em função da precariedade da saúde brasileira, que está muito necessitada”, contou o cubano, ao lembrar da chegada.

A necessidade a que Rafael se refere era real na Unidade de Saúde da Família de Cajazeiras XI, localizada em uma das áreas mais carentes da capital baiana. Cajazeiras XI é um dos setores do bairro de Cajazeiras, que possui dimensões de uma cidade e é, por isso, considerado o maior conjunto habitacional da América Latina (AL). Em 2010, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) contou 60 mil habitantes – 100 mil quando se considera os 40 mil moradores dos setores de Fazenda Grande, que, quase sempre, são incluídos no conjunto de Cajazeiras. Pela grande população e pela distância do Centro de Salvador, a impressão que se tem é que a localidade possui uma vida independente em relação ao município. Era esquecida, dizem os moradores, ao lembrar que, até 2013, não existia médico nas unidades de saúde.

A cerca de 70km dali, uma outra comunidade tem uma história parecida para contar. São Sebastião do Passé é um município da Região Metropolitana de Salvador (RMS). Lá, vivem 45 mil pessoas, segundo a última contagem do IBGE. Antes do ‘Mais Médicos’, a Unidade de Saúde da Família Péricles Rodrigues, na sede, funcionava sem atendimento médico. A mudança só aconteceu com a chegada de quatro médicos cubanos, enviados ao município para suprir a carência. São três homens e uma mulher. A única mulher do grupo é Yadira Giraudy, uma negra de cabelos ondulados e sorriso fácil, escalada para o trabalho da sede. Na comunidade, que é menor do que o bairro de Cajazeiras, a médica se tornou, ao longo desses dois anos, uma rainha.

Quem faz acreditar no título de majestade são os pacientes, que se derretem ao falar da médica cubana. Uma delas é Dona Maria Ionice Cerqueira, aposentada de 61 anos. Fez questão de falar à reportagem sobre a ‘doutora’, para quem não economiza nos elogios, mesmo recebendo ‘broncas’ dela, de vez em quando. É que Dona Maria Ionice às vezes descuida dos muitos problemas que possui: doença de chagas, osteoporose, colesterol alto, diabetes e quase-cegueira. “Sou acompanhada por ela e toda terça-feira eu estou aqui. Ela é muito boa, se preocupa muito com os pacientes. Além de examinar, ela escuta. Por causa do meu problema nas vistas, ela não deixa eu vir sozinha e nem quer que eu fique na rua sozinha. Só a preocupação dela…”, conta a aposentada, que teve a última frase interrompida pela própria emoção. Os depoimentos positivos sobre a médica se repetem na fila da unidade de saúde.

Mas o início não foi fácil para Yadira e Rafael. Além da tentativa de parte dos médicos brasileiros de criar uma imagem negativa dos profissionais estrangeiros junto à sociedade, os cubanos esbarraram, também, no português, pois a língua oficial de Cuba é o espanhol. “Quando cheguei, ninguém entendia nada. Tinha que falar muito devagar e muitos queixavam de que não entendiam a médica, mas, pouco a pouco, fui ganhando a confiança deles e melhorou muito. Hoje, me sinto muito bem com eles”, conta, aliviada, Yadira. No caso de Rafael, muitas vezes ele chegou a chamar os enfermeiros para que pudessem auxiliar na comunicação. Como português e espanhol são línguas parecidas, os dois médicos logo conseguiram desenvolver o ‘portunhol’ e os percalços com os diálogos diminuíram radicalmente.

Superadas as dificuldades iniciais, Yadira tratou de apresentar à população e à equipe da unidade de saúde algumas das características da medicina cubana que poria em prática: prevenção, humanismo e acompanhamento do paciente. De todas, a última surpreendeu mais. Duas das primeiras perguntas que a enfermeira brasileira Maria Juliete de Oliveira ouviu da médica foram: “Como são as visitas? Vamos fazer para todos os pacientes?” De queixo caído, a enfermeira tentou explicar que existiriam dificuldades pela grande quantidade de pacientes. Mas com a facilidade de estar e morar em uma comunidade menor – Rafael mora em um bairro diferente do que trabalha -, a médica insistiu e passou a fazer visitas às casas para conhecer e orientar os hábitos dos moradores, principalmente em relação à alimentação. Não dá para fazer visitar toda a comunidade, mas ela vai a todos aos grupos considerados prioritários pela equipe.

Preferência nacional

As histórias de Rafael e Yadira, marcadas pela transformação das vaias iniciais em ovações, na Bahia, não são as únicas. Pelo menos é o que revelou uma recente pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre a relação dos brasileiros com os profissionais do ‘Mais Médicos’, em que os cubanos são a grande maioria (são 11.429 dos 14.462 médicos participantes do programa). Feito em 700 municípios, entre novembro e dezembro do ano passado, o levantamento ouviu 14 mil pessoas, que deram, na média, a nota 9 ao atendimento oferecido pelos cubanos nas unidades públicas de saúde (55% dos entrevistados deram a nota 10). Outros 87% elogiaram a atenção e a qualidade do atendimento; 77% garantiram que tiveram uma boa comunicação com os profissionais estrangeiros.

Na Bahia, são cerca de 1.363 médicos em atuação pelo programa federal. Um relatório inédito da Secretaria Estadual de Saúde, a Sesab, apontou uma relação entre o aumento do número de médicos no estado, através do ‘Mais Médicos’, e uma melhora significativa dos índices de qualidade de vida dos baianos. Segundo o documento, de 2013 para 2014, houve uma redução da taxa de mortalidade infantil (de 16,35% para 15,39), de internações motivadas por condições relativas à atenção básica (de 42,02% para 40,90%), por Acidente Vascular Cerebral, o AVC, em pacientes de 30 a 59 anos (de 6,93% para 5,29%) e por diabetes e suas complicações (de 7,0% para 6,0%). Houve, ainda, um amento do número de bebês nascidos vivos de mães que fizeram sete ou mais consultas de pré-natal, durante a gravidez (de 46,97% para 50,83%).

Os profissionais do ‘Mais Médicos’ estão, segundo o MS, em 4058 dos 5570 municípios brasileiros, o que representa uma cobertura de 73% do território nacional. Entre os locais de atuação, estão 34 distritos indígenas. A estimativa é de que, hoje, 134 milhões de pessoas estejam sendo atendidas por médicos do programa. A presença de médicos fixos nas comunidades é estratégica, segundo o Ministério, porque, como a atenção básica é a porta de entrada dos que procuram atendimento médico, 80% dos casos que chegam às unidades são resolvidos no próprio local, sem que seja preciso o deslocamento e sem que haja a superlotação de unidades de atendimentos mais complexos.

“Antes [do ‘Mais Médicos’], não tínhamos a possibilidade de garantir a cerca de 63 milhões de brasileiros o acesso à atenção primária na saúde. Com o Mais Médicos, que conta com a cooperação da OPAs [Organização Pan-Americana da Saúde], nós temos efetivamente garantido a cada brasileiro o direito de uma atenção primária qualificada. Por meio do Programa, conseguimos levar profissionais onde vivem as pessoas com maior vulnerabilidade, nas periferias das grandes cidades brasileiras, nos quilombolas, assentamentos rurais, aldeias indígenas, na floresta amazônica, onde os brasileiros precisam de médicos”, disse o ministro Arthur Chioro, através da página do Ministério da Saúde na internet.

As principais vozes contrárias ao programa ‘Mais Médicos’ são das entidades que representam a classe médica. Desde 2013, elas têm defendido que a iniciativa não iria resolver o profundo problema da saúde no Brasil. Na Bahia, o presidente do Sindicato dos Médicos (Sindmed), Francisco Magalhães, foi procurado para comentar a pesquisa divulgada pela UFMG. Magalhães disse que estava sendo informado da pesquisa pela reportagem, mas que, mesmo sem um conhecimento prévio, refutava a metodologia e os resultados obtidos pelo levantamento da Universidade mineira.

“Nós estamos vivendo, no país, um quadro em que se verifica que as condições de trabalho dos profissionais de saúde estão piores. Estamos com problemas diversos”, defendeu o presidente do Sindmed-BA. Durante as visitas às unidades de saúde, a reclamação identificada pela reportagem em relação às condições dos locais foi sobre o irregular recebimento de medicamentos. Yadira, por exemplo, contou que em São Sebastião do Passé chega a faltar remédios para doenças crônicas [como hipertensão e diabetes], em alguns períodos. A médica alerta para os riscos que a irregularidade causa porque o uso dos medicamentos não pode ser interrompido e grande parte dos pacientes, segundo ela, não pode comprar.
Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde informou que “a maior parte dos medicamentos destinados ao tratamento de hipertensão de diabetes é de responsabilidade do próprio município. A Secretaria Municipal de Saúde é quem faz a aquisição”. A Secretaria de Saúde de São Sebastião do Passé foi contatada, mas, até o fechamento da reportagem, não apresentou um posicionamento. Sobre as críticas do presidente do Sindmed, a Sesab não se posicionou.

Missões cubanas

Os cubanos chamam as emissões de médicos para outros países de missões. A cônsul de Cuba no Nordeste do Brasil, Laura Pujol, explica que a iniciativa é antiga e consegue traduzir o espírito da ilha localizada na América Central. “Não é uma questão recente, mas algo que se estende na História. Desde os anos de 1960 nós enviamos para onde precisa da nossa ajuda solidária. Isso tem a ver com princípios e com a formação que nós temos, de entender que a solidariedade é uma pedra fundamental de nossa cultura. Para nós, não é dar o que sobra, mas compartilhar o que se tem”, afirmou a cônsul. Mais de 128 países já receberam médicos de Cuba e, atualmente, há mais de 68 mil médicos prestando serviços pelo mundo. Além do Brasil, outros países que receberam grandes missões cubanas foram Afeganistão, Venezuela e diversos países do continente africano, segundo o consulado. Antes de virem para o Brasil, Rafael e Yadira participaram de outras missões. Os dois estiveram na Venezuela e em Honduras.

O Consulado Regional de Cuba está instalado em Salvador e realiza um trabalho de acompanhamento das condições de vida e trabalho dos médicos em toda a região Nordeste do Brasil. De acordo com Laura, são feitas de 15 a 20 visitas por mês aos municípios pelos próprios cônsules – além dela, há mais dois. Como a demanda é grande e a equipe não consegue estar em todas as localidades, o consulado resolveu promover, além das visitas, encontros dos médicos que atuam nas mesmas regiões. Nas ocasiões, que são celebrações com elementos da cultura cubana, os cônsules aproveitam para fazer os levantamentos sobre a vida nos municípios. “Queremos que eles sintam que o nosso governo está preocupado e está ali para qualquer situação que eles precisarem”, explicou Laura.

Para viabilizar o ‘Mais Médicos’, o Governo federal conta com parcerias dos estados e municípios. Ao município, cabe garantir a permanência dos médicos instalados nas comunidades, oferecendo, por exemplo, moradia, alimentação e transporte. Durante as entrevistas, Rafael e Yadira não reclamaram das condições oferecidas pelas prefeituras, mas foi possível observar que elas poderiam ser melhores. Maria Juliete, a enfermeira da unidade São Sebastião do Passé, contou que Yadira já reclamou de ter que dividir uma pequena casa com os outros três médicos conterrâneos. A casa alugada para Rafael pela Prefeitura de Salvador fica em Itapuã, um bairro distante de onde ele trabalha. Ele mora com a esposa, Gaya, também médica de Cuba, que trabalha na mesma unidade – e, assim como ele, é bastante concorrida. O casal vai e volta de ônibus, enfrentando engarrafamentos no trajeto, que chega a ser feito em até 1 hora. Se morassem na própria Cajazeiras XI, a qualidade de vida, certamente, seria outra.

A permanência dos médicos estrangeiros no programa é, em média, de três anos. Como já estão no Brasil desde o início, há mais de dois anos, a partida já está se aproximando. Rafael e Yadira, embora se sintam bem acolhidos, não veem a hora de matar a saudade da família que ficou em Cuba – ambos possuem filhos. A equipe de saúde das unidades em que eles trabalham preveem que a falta será grande, proporcional ao legado que os cubanos deixarão. As equipes garantem que vão seguir com os ensinamentos recebidos, principalmente os relacionados à prevenção. Difícil será, certamente, a partida dos médicos para as comunidades. Quando questionados sobre isso, os pacientes preferem nem pensar. Foram cativados e esse pode ter sido o grande erro dos cubanos durante a missão. Como ensina a história do ‘Pequeno Príncipe’, mundialmente conhecida: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Agradecimentos a Lázaro Guerreiro, Antônio Barreto e Cida Meira.

De Salvador, Erikson Walla

Portal Vermelho

‘Os filhos da Operação Condor são agora os da Operação Abutre’

Em entrevista, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, denuncia um plano desestabilizador contra os governos populares da América do Sul.

Darío Pignotti

Brasília – Sem protocolo. Enquanto Nicolás Maduro caminha em direção ao portal de vidro do Palácio do Itamaraty, os Dragões da Independência, a guarda de honra brasileira, vestida com capacetes dourados e uniformes do Século XIX, se colocam em formação para despedir os visitantes erguendo suas armas. De boa vontade, o mandatário venezuelano detém sua marcha por um pedido de entrevista para este diário, e responde: “é para o Página/12? Ótimo, deveriam publicar uma edição na Venezuela também”.

Ele acabava de concluir sua participação na Cúpula presidencial do Mercosul com um discurso que reforçou o seu repúdio ao novo tipo de movimento desestabilizador que se ensaia no Brasil, na Argentina e na Venezuela. As presidentas Dilma Rousseff e Cristina Fernández de Kirchner tiveram intervenções durante o encontro onde também abordaram o tema, o que Maduro destaca como “gestos importantes”.

Antes de começar a gravação, o presidente elogiou seus colegas com um tom de voz que levemente ia crescendo, como se, em algum momento, ele sentisse que começava a fazer um discurso do balcão do Palácio de Miraflores, em Caracas. “Valentes! Elas se manifestaram de maneira direta, correta, contra aqueles que querem esmagar os nossos povos. Dignas! Entrego a elas a minha saudação com todo o respeito e afeto. São lutadoras, lutam contra as conspirações, contra as campanhas midiáticas”.

Não porque seja inédita em um subcontinente acostumado a manobras como as que aconteceram na Venezuela, em 2002, e no Paraguai, em 2012, além das tentativas na Bolívia (2008) e no Equador (2010), mas porque é a primeira vez que esse espectro ronda o gigante Brasil, que agora necessita de um cinturão de solidariedade continental.

A conversa com Maduro se deu na porta da chancelaria, a uns 300 metros do Congresso Nacional brasileiro, e a mais ou menos 1,5 quilômetro do Palácio Planalto, onde os telefones não param de tocar.

Isso porque enquanto Dilma recebia seus colegas sul-americanos, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, anunciava sua ruptura com o governo e desarquivava um pedido de impeachment apresentado pelo militar retirado Jair Bolsonaro, reeleito no ano passado com uma plataforma que reivindica a tortura policial e a ditadura, “que nos salvou de ser uma Cuba totalitária, como a que queriam os terroristas que agora estão no Planalto”.

– Existem cada vez mais fantasmas?

– Existem fantasmas, claro. Porque os filhos da Operação Condor, de quarenta anos atrás, são agora os da Operação Abutre, que querem as nossas cabeças. Querem nos fazer desaparecer. Querem acabar com os governos progressistas, os processos de mudança, com os processos populares que construímos na nossa América Latina. Nós, na Venezuela, temos já dezesseis anos de experiência derrotando esses golpes de Estado, derrotando as guerras econômicas, as guerras psicológicas. O que aconteceu em todo esse tempo? Das 19 eleições realizadas no país, nós ganhamos da direita 18 vezes, e este ano vamos ganhar outra eleição (a legislativa, em dezembro), a de número 19. Mas eles não se importam, porque são golpistas, e vão continuar agindo da mesma forma.

– Há um mês atrás, senadores golpistas brasileiros foram visitar seus correligionários em Caracas.

– Bom, aquilo foi para fazer um gesto à direita mais violenta da Venezuela, a que acha que pode governar no grito. Eles realmente acham isso, que podem recuperar o poder em todos os nossos países da mesma forma que fizeram no passado. Eles foram os que governaram no nosso continente durante cem anos e ainda têm a mesma mentalidade autoritária, intervencionista, essa mentalidade pró-imperialista. Mas enfim, aqui estamos nós, para continuar derrotando essas manobras, e vamos derrotá-las.

– Você vê instabilidade no Brasil?

– Vemos uma grande força popular no Brasil, e se for desafiada ela vai reagir. Nós dissemos aqui que se tocam a Dilma, se tocam o Lula, o povo vai defender e vai triunfar.

Cuba

O automóvel oficial aguarda o presidente na Esplanada dos Ministérios, a ampla avenida do centro brasiliense, e Maduro avança sobre o tapete vermelho, pelo corredor feito de Dragões da Independência – possivelmente sufocados debaixo desses pesados chapéus metálicos dourados.

– Você me permite algumas perguntas a mais? Por exemplo, sua opinião sobre a retomada do diálogo entre Cuba e Estados Unidos.

– Muito bem… eu acho excelente. Uma grande conquista, uma grande vitória da Cuba revolucionária de Fidel. Se manteve de pé o tempo inteiro, e no final o imperialismo teve que reconhecer esse fracasso histórico.

– Isso contribui para a estabilidade na Venezuela?

– A estabilidade na Venezuela nós temos que sustentar a partir das nossas próprias forças, porque o império quer nos destruir. Bom, assim já está bem…

– Presidente, espera, o que o presidente Obama lhe disse na Cúpula das Américas (em abril no Panamá)?

– (indo embora) Ele (Obama) disse que deveria ser realista com respeito à Venezuela, nós somos uma realidade, eles não podem nos apagar, porque somos uma realidade, um projeto de inclusão que está bastante vivo.

Tradução: Victor Farinelli

Fonte: Carta Maior

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/-Os-filhos-da-Operacao-Condor-sao-agora-os-da-Operacao-Abutre-/6/34048

Cooperação entre Cuba e Brasil está cada vez mais diversificada

A cooperação do Brasil com Cuba alcança hoje uma ampla faixa de setores e prevê-se diversificar ainda mais com a incorporação de áreas como esporte, afirmou o embaixador brasileiro Cesario Melantonio Neto.

 

Roberto Stuckert Filho/PR

Atualmente nossa nação mantém crescente colaboração na agricultura mediante o programa Mais Alimentos, que consiste na exportação a Cuba de equipamento brasileiro agrícola diverso, e também em saúde pública, medicamentos, biotecnologia, indústria de tabaco e energia, entre outros, informou o diplomata.

Em entrevista a Prensa Latina, indicou também que em virtude desse projeto chegam à ilha grandes quantidades de tratores, fumigadoras, equipes de irrigação e outros para incrementar a capacidade cubana de produção de alimentos e reduzir a importação destes.

Neto assegurou que em 2014 terminou com sucesso a primeira etapa de tal programa -participam o Ministério de Agricultura de Cuba e o do Desenvolvimento Agrário do Brasil – e agora avançam as negociações da segunda, correspondente a 2015, enquanto se prevê uma terceira em 2016.

Ele comentou que Cuba dispõe de bons solos, muito sol e chuva, condições agrícolas positivas para incrementar a produção interna e reduzir a dependência externa na aquisição de alimentos.

Em virtude do programa, também numerosas coletoras de cana brasileiras participam na safra cubana, enquanto existe uma cooperação para o aproveitamento da biomassa da cana de açúcar a fim de obter energia elétrica.

A respeito da cooperação em saúde, precisou que tem duas áreas importantes: a presença de médicos cubanos em seu país e também a existente no terreno da biotecnologia, um setor muito promissor, sustentou.

Estamos satisfeitos com o trabalho de quase 12 mil médicos cubanos no Brasil, onde têm atendido a cerca de 48 milhões de pessoas.

Segundo o diplomata, pesquisas de opinião pública realizadas entre a população lançam índices de satisfação muito altos quanto à assistência realizada pelo pessoal cubano.

Agora se inicia uma cooperação no futebol, que se está convertendo em um importante esporte nacional depois do beisebol, observou e aludiu a seguir à recente presença em Cuba do brasileiro Pelé.

Cuba, afirmou, é uma potência olímpica na região e queremos aproveitar esse volume de experiências para incrementar a cooperação nessa esfera.
Fonte: Prensa Latina

Aprovado o Banco dos Brics. Falta pouco para a primeira novidade pós-Breton Woods

brics-2014

 

Por Fernando Brito

 

Em julho de 1944, quando os destinos da 2a. Guerra Mundial já estavam definidos, uma conferência internacional – essencialmente ocidental – criou as duas instituições que, durante mais de meio século, tiveram a hegemonia da relações monetárias e das condições de cooperação financeira entre os países do mundo.

Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial (então, Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento) foram ferramentas importantíssimas na implantação do domínio econômico da potência vencedora – os EUA – sobre a face da Terra e o nascedouro do padrão-dólar nas relações cambiais, dando um indescritível poder a quem o emitia, pois passou não apenas a ser a referência de valor das moedas como, cruelmente, passou a ser mundialmente entesourado, permitindo a emissão de moeda sem o efeito inflacionário que isso traz: a moeda que não circula não  gera inflação, obvio.

A Europa, em frangalhos, pendurou-se na hegemonia norte-americana e, na economia – ao contrário do que ocorreria na política, meses depois, na Conferência de Yalta – o mundo tornou-se unipolar. A tentativa de escapar dela, pela Europa, primeiro através do Mercado Comum Europeu e, depois, pela unificação monetária no Euro, levou 50 anos, e deu uma sobrevida à decadente economia do Velho Continente que, se não podia mais projetar-se globalmente, como na primeira metade do século 20, ao menos conseguiu – aos trancos e barrancos e cada vez mais sob a batuta alemã – preservar a capacidade de, internamente, funcionar como bloco, ao menos até que as crises da dívida pública dos seus membros abrisse rachaduras como a da Grécia e Itália que lutam para remendar por lá.

Primeiro discretamente, ao longo dos anos 80 e da primeira metade dos 90, a China, de 1995 em diante, sai de um papel nulo na economia global para tornar-se, no século 21, uma grande locomotiva da economia mundial, praticando um misto de grande liberalismo na atração de capitais e seletivo protecionismo no seu desenvolvimento industrial, que a tornou o grande player do comércio mundial. E é obvio que com a formação de capital próprio abundante, queira um papel menos dependente e mais isolado na atividade econômica do mundo.

Nesta década, ela assumiu abertamente que quer fazê-lo através de um processo de cooperação muito mais comercial que financeiro, ao contrário dos EUA que sempre pretenderam o controle das economias internas dos países, quando não dos próprios países.

Deu dois passos gigantes, mas pacientes e sem manifestações de exclusivismo, até agora.

O primeiro, com a formação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura – aberto ao mundo todo mas, como o nome indica, voltado para sua afirmação geopolítica no continente e cujas possibilidades, mesmo com os muxoxos públicos dos EUA, não impediu que a Europa – Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha – e a Austrália aderissem à iniciativa, pelo potencial que tem para todo o mundo, inclusive o Brasil.

O segundo, em escala global, sinalizando que quer parcerias duradouras com líderes continentais (no caso da Índia, subcontinentais) de todo o planeta, hoje em processo de afirmação econômica. E que, somados, como relembra a nota do Ministério da Fazenda, hoje, “representa 42% da população mundial, 26% da superfície terrestre e 27% da economia global”.

O Banco dos Brics, ou Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), como é seu nome oficial é isso,  mais do que a capacidade de investimento no curto prazo,  e a prova mais convincente é a divisão igualitária da governança da nova instituição.

É o recado mais direto que se podia dar aos EUA, que resistem teimosamente a mudar as regras de participação e influência no FMI, cuja função de prover estabilidade monetária se confundiu  com a de ser uma espécie de “polícia econômica” mundial, como os brasileiros acima dos 40 anos sabem que foi, para muitos e para nós.

É por isso que seu anúncio veio casado com – aí, sim, com a hegemonia chinesa, que  tem imensas reservas cambiais e é o maior credor do Tesouro Americano –  com a criação de um megacolchão monetário – US$ 100 bilhões – um fundo autogerido de reservas monetárias e cambiais para conter eventuais pressões cambiais dos países do BRICS e que, ao contrário do NBD, não exigirá aportes financeiros, mas a virtual disponibilização mútuas das reservas  em caso de ataques contra as moedas dos cinco integrantes.

Chamo a atenção para o último parágrafo de nota de Joaquim Levy, que para bom entendedor é o bastante:

“O NBD é uma instituição aberta a qualquer país membro das Nações Unidas. Os países dos BRICS, no entanto, dada sua condição de membros fundadores, manterão um poder de voto conjunto de pelo menos 55%. Ademais, nenhum outro país individualmente terá poder de voto de um país dos BRICS. Esta previsão garante ao Brasil lugar de fala privilegiado na governança do Banco e possibilitará que os BRICS efetivamente possam ver suas experiências de desenvolvimento refletidas no primeiro Banco Multilateral de Desenvolvimento de alcance global estabelecido desde a instituição do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), criado na esteira da Segunda Guerra Mundial.”

O acordo de reciprocidade no uso de reservas e o banco, são, de fato, a primeira resposta – não de confronto, mas de preservação de soberania – dada à Era FMI.