Estados Unidos: El precio del poder

24 Feria Internacional del Libro. Se presentó en la Sala Nicolás Guillen el libro Estados Unidos el Precio del Poder del autor Alejandro Castro, este fue presentado por el Asesor del Presidente de los Consejos de Estado y Ministros Abel Prieto
El autor agregó que este nuevo volumen no es más que una continuidad histórica más actualizada de lo que está ocurriendo en estos momentos Foto: Alberto Borrego

Como un libro esencial, de gran utilidad y doblemente importante en los momentos actuales fue catalogado por el escritor Abel Prieto, asesor del presidente de los Consejos de Estado y de Ministros, el volumen Estados Unidos: El precio del poder, del politólogo e investigador Alejandro Castro Espín.

“Es una investigación acuciosa, muy completa, hecha desde una mirada científica y con un punto de vista analítico que termina siendo demoledor”, expresó Prieto, quien tuvo a su cargo la presentación de la nueva edición del título, que aconteció en la Sala Nicolás Guillén de la Cabaña, durante la penúltima jornada de la Feria Internacional del Libro.

Alejandro parte de un análisis que nos ubica en el contexto actual y trata de ir desmontando cómo se gestó la élite de poder de Estados Unidos. Es una gran contribución al pensamiento antiimperialista, tan necesario en estos momentos, manifestó sobre el libro, cuya reciente entrega ve la luz bajo el sello de la Casa Editorial Capitán San Luis.

“Distribuido en cinco capítulos, con una información muy organizada, el texto nos da muchas claves para entender los conflictos del mundo de hoy. Cuando uno termina de leerlo siente que tiene más argumentos para ser radicalmente antiimperialista”, aseguró el presentador.

Por su parte, el autor agregó que este nuevo volumen no es más que una continuidad histórica más actualizada de lo que está ocurriendo en estos momentos.

“Cuando vemos los acontecimientos que estamos viviendo, luego del 17 de diciembre, uno trata de buscar los orígenes que condujeron a la élite de Estados Unidos a hacerse un replanteamiento de la política hacia Cuba”, agregó Castro Espín, quien además consideró que la obra puede contribuir a que las más jóvenes generaciones conozcan las esencias del imperio norteamericano.

Publicado en inglés, árabe, ruso, griego, chino y francés, Estados Unidos: El precio del poder es unainvestigación que desentraña muchas interrogantes de dos siglos de ínfulas hegemónicas de los Emperadores del Terror, que en función de sus intereses usurpan el mandato del pueblo norteamericano.

Entre sus páginas, el lector encontrará igualmente pruebas contundentes sobre la esencia imperial de las fuerzas que ejercen el poder desde la fundación de la nación y los métodos empleados para preservarlo.

La presentación en La Cabaña contó con la presencia de los Cinco Héroes antiterroristas cubanos; Julián González Toledo, Ministro de Cultura; Zuleica Romay, presidenta del Instituto Cubano del Libro, así como destacados intelectuales y escritores cubanos y extranjeros.

Mesmo que consumismo chegasse a Cuba, país não perderia identidade, diz assessor de Raúl

Entrevistas e perfis

Salim Lamrani | Paris – 14/02/2015 – 08h05

Abel Prieto é ex-ministro da Cultura do governo de Fidel Castro e atual assessor para assuntos culturais; para ele, Cuba se beneficiaria de aproximação com EUA

Durante uma reunião com Fidel Castro em meados dos anos 1990, Abel Prieto relatou ao líder da Revolução Cubana suas divergências e declarou seus pontos de vista. Alguns pensaram que a sua carreira seria irremediavelmente afetada. Semanas depois, Castro decidiu nomeá-lo ministro da Cultura, em 1997, cargo que ocuparia até 2012. Em março de 2012, Prieto deixou o Ministério da Cultura para ser assessor especial do presidente Raúl Castro.

Para o ex-ministro, Cuba se beneficiaria de uma aproximação dos EUA e, por mais que turistas norte-americanos trouxessem a cultura do consumismo pra ilha, os cubanos não perderiam sua identidade. Ainda segundo Prieto, o país tem lutado muito, especialmente na área de cultura, contra a burocracia, que classificou como “praga” que causa “dano incalculável”.

Flickr/Cubadebate

Opera Mundi: O senhor foi ministro de Cultura durante quinze anos. Hoje, o senhor é assessor do presidente Raúl Castro na área da cultura. Qual é seu papel?
Abel Prieto:
Minha tarefa consiste em promover a cultura cubana e garantir que as instituições culturais cubanas promovam os melhores talentos do nosso país. Meu trabalho consiste também em vincular a cultura e o povo, desenvolver as relações culturais internacionalmente e defender a política cultural da Revolução.

OM: A política estadunidense em relação a Cuba, particularmente as sanções econômicas, tem um impacto na cultura cubana. Qual seu ponto de vista a respeito?
AP: O impacto econômico é evidente. O presidente Barack Obama permite intercâmbios culturais, mas não comerciais. Muitos artistas, como Los Van Van, Carlos Varela, a Escola Nacional de Ballet e Silvio Rodriguez realizaram turnês pelos Estados Unidos, mas não puderem receber nem um centavo por suas atividades.

O maior mercado do mundo para as artes é o mercado estadunidense. Nossos artistas, escritores, intelectuais não têm acesso a ele. Nossas editoras, nossas galerias artísticas e nossas empresas culturais são proibidas de entrar nos Estados Unidos.

O povo norte-americano perde uma grande possibilidade de enriquecer com o contato com o nosso povo, por causa de uma política irracional, absurda e indefensível. Acontece o mesmo com o povo cubano, tão curioso intelectualmente, tão voraz de um ponto de vista cultural, que se vê privado de um intercâmbio fecundo com seu vizinho do Norte. Quando esses intercâmbios acontecem em Cuba, como durante a visita de uma artista estadunidense, os efeitos são impressionantes.

OM: Cuba está disposta a se aproximar dos Estados Unidos?
AP: Cuba se beneficiaria muito de uma aproximação dos Estados Unidos. É verdade que uma avalanche de turistas norte-americanos traria a cultura do consumismo, mas acredito que os aspectos positivos superariam amplamente os efeitos negativos. Muitos cidadãos norte-americanos têm muita curiosidade em descobrir “a ilha proibida”, já que é o único país do mundo que não têm direito de visitar. Lembro-me de um encontro com um importante cineasta, no cine Chaplin de Havana, no qual ele se assombrou ao ver a modernidade do lugar, a presença de um Festival de Cinema por ano etc. Isso demonstra até que ponto a imagem de Cuba na sociedade estadunidense não corresponde à realidade. O melhor antídoto contra isso é a mensagem cultural, que tocará com todo seu vigor e autenticidade o povo norte-americano e destruirá os estereótipos.

Leia também: Entenda o que muda em Cuba e EUA com a nova política anunciada entre os dois países

OM: Não há riscos nessa aproximação?
AP: Nossa identidade sofreria? Creio que temos uma vantagem. A identidade nacional cubana e a cultura nacional têm um núcleo de resistência muito forte e, ao mesmo tempo, se nutrem de investimentos exteriores. Somos descendentes de colonos espanhóis. Também somos o fruto dos escravos da África e a herança deste terrível genocídio. Somos também o resultado da imigração chinesa, polaca etc. Cuba é uma cultura mestiça capaz de absorver tudo sem atentar contra sua natureza profunda.

Então, não creio que perderíamos nossa identidade com uma chegada massiva de turistas norte-americanos. A cultura americana está muito presente em Cuba e nos chega por meio do cinema, da televisão, da música, e do meio milhão de cubano-americanos que nos visitam todos os anos. A cultura hegemônica associada à globalização está nos afetando e a resposta é de ordem educativa. Não vemos nossa realidade como o centro do mundo. Nossa vocação é universalista, como nos ensinaram José Martí e Fidel Castro. Creio que, em termos de valores, os norte-americanos somente poderiam enriquecer com um intercâmbio frutífero com os cubanos.

O que nos prejudica é a situação atual que é perversa, pois nos impede de adquirir medicamentos para as crianças doentes, com uma autoridade que nos persegue constantemente, que persegue os bancos que têm relações comerciais conosco. Tudo isso é de uma grande crueldade.

OM: Quais são os obstáculos para uma plena normalização das relações entre ambas as nações?
AP:
Creio que é necessário voltar ao século XIX para entender a história do desacordo que opõe Cuba e Estados Unidos. John Quincy Adamns elaborou a história da “fruta madura”. Cuba deveria gravitar em torno da órbita estadunidense. Para os estrategistas do Norte, a ilha pertencia à sua zona de influência. José Martí o denunciou com vigor.

Em 1959, Cuba conseguiu sua independência e se tornou uma grande potência moral que mostra para o mundo que é possível enfrentar o imperialismo. Cuba é um exemplo de soberania para a América Latina e para o mundo. Cuba deu prova de uma grande tenacidade na defesa de seus princípios. Penso que é o que os Estados Unidos não perdoam. Davi pôde resistir a Golias. Ainda que mudássemos de modelo e adotássemos o capitalismo selvagem que está destruindo a humanidade, não perderíamos essa afronta. Os Estados Unidos somente aceitam a subordinação. Não perderam a esperança de fazer de Cuba uma colônia. Veja que os pretextos para manter a hostilidade contra Cuba mudam de acordo com as épocas.

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Em geral, os Estados Unidos dão prova de pragmatismo em sua política exterior e é uma característica de sua idiossincrasia. Mas, no caso de Cuba, essa tradição clássica desaparece em favor de uma atitude irracional. Os Estados Unidos sabem se mostrar grandes em alguns aspectos. Em troca, em relação à sua política contra Cuba, se mostram muito pequenos. Sua atitude é realmente pouco honrada, já que não se obtém nenhuma glória em sitiar um povo que jamais agrediu os Estados Unidos.

OM: Há quem diga que as autoridades cubanas usam as sanções econômicas como desculpa para explicar o fracasso do sistema.
AP:
 Por que, então, não nos tiram essa desculpa? Não seria mais didático fazer isso? Por que não tiramos esse pretexto para mostrar ao mundo que nosso modelo de sociedade é ineficiente? Isso não quer dizer que não tenhamos cometido erros. Essa Revolução foi edificada por homens e mulheres e não é obra divina. É imperfeita por definição.

OM: Qual será o benefício para os Estados Unidos em caso de mudança de política?
AP: Nosso presidente Raúl Castro afirmou várias vezes que estamos dispostos a dialogar de igual para igual, sobre todos os temas possíveis e imagináveis, sem atentar contra nossos princípios, nossa dignidade e nossos direitos. Aceitaremos sempre o diálogo respeitoso entre dois países soberanos.

De um ponto de vista econômico, a indústria turística estadunidense seria a principal beneficiária de uma normalização das relações entre nossos dois países. Em termos de imagem, isso teria um impacto muito positivo para os Estados Unidos, que sairiam de seu isolamento. [Seria um benefício] para os cidadãos dos Estados Unidos, [que] recuperariam seu direito de viajar para Cuba, de comercializar com a ilha. De uma perspectiva moral, todas as pessoas dignas que vivem nos Estados Unidos, e são muitas, se orgulhariam de uma mudança de política em relação a Cuba.

Flickr/Cubadebate

Prieto é observado por Fidel durante encontro de intelectuais com líder cubano, em 2012

OM: Quais são os desafios para a Cuba de hoje?
AP: Estamos lutando uma grande batalha contra a burocracia, que é uma praga para nosso país e que nos causou um dano incalculável. Isso concerne à área da cultura. Vejo todos os dias como essa burocracia, devoradora de energias e recursos, desperdiça os fundos, sem nenhuma relação com os processos culturais. Devemos construir um socialismo mais eficiente, mais fluído, menos sectário, mais audaz, mais revolucionário.

Abrimos nossa economia para a empresa privada. No setor cultural já existia o trabalho por conta própria dos artistas plásticos, que geram patrimônio com suas obras – e reforçam o tecido espiritual de nossa nação. Temos muitos artistas que não são empregados do Estado e não se transformaram em conservadores ou reacionários. Existe certo marxismo vulgar, que chegou com os manuais soviéticos, que associa o trabalho privado ao reacionário e que o cataloga como inimigo do povo. Na realidade, acontece o contrário, já que o pequeno negócio e a cooperativa reforçam o socialismo. Da mesma forma, nosso Partido Comunista deve se abrir mais para a diversidade, a análise crítica, à discrepância e ao debate. Deve ser menos dogmático. Nosso caminho é autenticamente cubano e envolve toda a população. Mas não pretendemos ser um modelo.

OM: O que Fidel Castro representa para o senhor?
AP: Eu tinha oito anos quando a Revolução triunfou. Meu pai foi membro do Movimento 26 de Julho, discípulo de José Marti e grande admirador de Fidel Castro. Lembro-me dos longos discursos de Fidel Castro pela televisão. Não entendia muito, já que era muito jovem, mas era uma pessoas que cativava. Lembro-me de Fidel, durante a crise dos mísseis e da valentia das pessoas. Corríamos o risco de ser varridos da face da terra, mas não havia pânico entre a população.

Quando estava na universidade, o vi várias vezes. Conheci Fidel pessoalmente na Casa de las Américas, nos anos 1970. Havia um curso sobre jovens escritores e o Roberto Fernández Retamar o apresentou para mim. Lembro que Fidel brincou com Gabriel García Márquez, que estava com ele e lhe perguntou: “Você acredita que um deles será Prêmio Nobel algum dia?”

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Quando integrei a União de Escritores e Artistas de Cuba como presidente, tive o privilégio excepcional, durante um congresso, de me encontrar com Fidel. Lembro que um amigo tinha me dito que Fidel nunca se interessava superficialmente pelas coisas, e que fazia muitas perguntas. Então, me preparei e reuni muitos dados sobre os membros da UNEAC, por províncias, o número de mulheres, a faixa de gerações etc. Decorei tudo. No dia seguinte, cheguei para a reunião com os nervos à flor da pele. Lembro-me da primeira pergunta, uma vez que não sabia a resposta: “Quando metros quadrados tem o pátio da sede da UNEAC?”. Meu secretário me deu uma cifra, evidentemente falsa, e Fidel começou a rir. Creio que tenho o recorde nacional de equívocos com Fidel, já que sempre dou dados errados para ele.

Tem sido um grande privilégio porque encontrei um homem que tinha uma grande visão estratégica com uma paixão pelo detalhe. É capaz de sintetizar o futuro da humanidade e, ao mesmo tempo, avaliar com grande precisão cada detalhe.

OM: Qual é a importância de Fidel Castro para a cultura cubana?
AP: Fidel é um intelectual brilhante, um grande leitor. Retamar me disse um dia que Fidel não lia José Martí, mas o respirava. Há uma grande articulação entre Martí e Fidel, ainda que sejam de épocas diferentes.

Lembro que, em 1994, em pleno Período Especial, com uma crise econômica gravíssima, Fidel se reuniu conosco na UNEAC e disse: “O primeiro que temos de salvar é a cultura”. Tinha seis horas de eletricidade por dia. Foi um momento muito amargo, uma época muito difícil de um ponto de vista material. Mas a prioridade era a cultura.

Fidel traçou uma política cultural muito diferente do “realismo socialista” da Europa do Leste, muito aberta, muito unitária, com uma implicação constante dos artistas de todas as gerações e de todas as tendências. Essa política cultural nos salvou, já que nossos inimigos nunca puderam contar com uma quinta coluna na intelectualidade cubana. Jamais houve uma oposição intelectual em Cuba paga pelos Estados Unidos. O pensamento de Fidel nos permitiu conceber uma política de cultura distanciada dos dogmas, das exclusões, uma política cultural de vanguarda. Fidel sempre se aliou a uma vanguarda intelectual de nosso país, a vanguarda artística de nossa nação. Também fez com que essa vanguarda trabalhasse a favor da inclusão do povo na cultura. Não se tratava de uma aliança elitista, mas de uma aliança integradora. Para Fidel, a cultura é essencial para transformar as pessoas, para a emancipação humana. Fidel dizia muito o seguinte: “Sem cultura, não existe liberdade possível.”

*Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV,  Opera Mundi é professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama Cuba, the Media, and the Challenge of Impartiality, New York, Monthly Review Press, 2014, com prólogo de Eduardo Galeano.

“A grande escola revolucionária de Cuba foi a participação”

Por Sheila Fonseca,

Daniel Planel/Agência Ponto de Equilíbrio Imagens

23 de abril de 2014 – 14h40

O professor, escritor, cientista político e ex-ministro da Cultura de Cuba, Abel Prieto, esteve no Brasil neste mês para participar da 2ª Bienal do Livro e Leitura, em Brasília, e também do encontro da Rede de Artistas e Intelectuais em Defesa da Humanidade, no Rio. Prieto concedeu uma entrevista exclusiva ao Vermelho, onde fala dos desafios enfrentados no atual período de abertura comercial cubana e do futuro da integração latino-americana.

Segundo o ex-ministro da Cultura de Cuba, a integração das Américas acontecerá através da cultura. Segundo o ex-ministro da Cultura de Cuba, a integração das Américas acontecerá através da cultura.

“Se realmente se pretende construir na América Latina uma aliança que perdure, ligada por afetos, relações reais e diálogo, a cultura tem que estar presente”. Essa é a ideia central que dá o tom à entrevista e define em boa parte o legado político e sociocultural de Abel Prieto.

Formado em Literatura Hispânica pela Universidade de Havana, ocupou o cargo de ministro da Cultura de Cuba por 15 anos, de 1997 a 2012, implementando em sua gestão a ampliação do diálogo cultural com países da América do Sul. Prieto também foi diretor do Editorial Letras Cubanas e presidente da União de Escritores e Artistas de Cuba, antes de tornar-se ministro. É autor dos romances “Los bitongos y los guapos” (1980), “Noche de sábado” (1989) e “El vuelo del gato” (1999). Atualmente ocupa o cargo consultivo de assessor do presidente Raúl Castro.

Bem-humorado, carismático e de discurso otimista, Prieto fala de questões relevantes para o Brasil, como o desenvolvimento do projeto de integração através da Rede de Artistas e Intelectuais em Defesa da Humanidade e faz uma previsão: “Prevejo, no futuro, uma Cuba em que o consumo não esteja associado à ideia de felicidade.”

Vermelho: A Revolução Cubana sempre atribuiu como um dos elementos centrais a questão do fortalecimento da cultura popular como resgate da identidade do povo cubano, num sentido abrangente. As manobras externas buscando a desestabilização desse modelo sociocultural e sociopolítico cubano foram as mais diversas desde o início da Revolução. O filósofo e ativista político Noam Chomsky chegou a afirmar certa vez que “Cuba foi vítima de mais terrorismo que qualquer outro país do mundo”. Na opinião do senhor, em meio à questões econômicas e políticas tão extremas, como embargos que Cuba vivencia, o que se conseguiu consolidar da cultura popular cubana, de forma a ter um papel protagonista na definição da identidade do país?

Abel Prieto: O campo da política educacional e cultural sempre foram prioridades, pois são pilares da Revolução Cubana. Fidel dizia que uma revolução somente pode ser filha da cultura e das ideias. Então houve um trabalho muito duro, um processo de descolonização, de resgate da cultura popular, folclórica e de valorização da cultura africana, que havia sido oprimida, perseguida através dos anos, desde a colonização espanhola. Criou-se ainda nos anos 1960, o Conjunto Folclórico Nacional, que foi muito importante, foi um marco nesse processo de resgate cultural. Expressões da religiosidade africana, subestimadas pela igreja (católica), começaram a ser valorizadas nesta época através da consciência revolucionária, permitindo que novos valores fossem surgindo e se consolidando em Cuba. Investiu-se também como política na alfabetização de adultos, fazendo um trabalho duro para tirar o povo da ignorância. Criamos a “Casa de Las Américas”, que foi um divisor de águas na política cultural cubana, logo no inicio da revolução. Buscamos um projeto de valorização da nossa cultura, da cultura popular, mas nunca de maneira simplificadora. A grande escola revolucionária foi a participação. O que permitiu que a Revolução Cubana pudesse avançar, ter êxito e persistir até os dias de hoje, foi esse trabalho de resgate do nosso patrimônio cultural e a democratização do acesso à cultura.

Qual o impacto cultural do bloqueio norte-americano a Cuba? O senhor acredita na possibilidade de estarmos nos aproximando do fim desse bloqueio?

O bloqueio limita de muitas formas. Há o impacto político, social, econômico. Na cultura, limita os artistas, os escritores, porque os EUA são o principal mercado consumidor de arte. Então isso limita economicamente. E perde-se de ambos os lados, os músicos, escritores, artistas plásticos deixam de se apresentar em um mercado consumidor e os EUA, por sua vez, ficam privados da riqueza da cultura cubana. Eu creio que sem o embargo as escolas de arte teriam mais recursos, poderíamos investir mais. Recentemente o presidente norte-americano, Barack Obama, concedeu uma autorização à artistas cubanos para se apresentarem nos EUA. Mas é uma autorização muito precária, muito limitada, porque é em caráter acadêmico e não remunerado. Os artistas seriam liberados para se apresentarem em eventos específicos e não poderiam receber por seu trabalho. É difícil fazer previsões sobre o fim do embargo. Obama tem sido perseguidor implacável, talvez até pior do que a gestão Bush.

Como exemplo, recentemente houve uma polêmica com um medicamento patenteado cubano chamado Heberprot-P. Esse medicamento tem ação única no mundo, ele trata de feridas, úlceras nos pés causadas pelo diabetes, que são responsáveis por amputações. O Heberprot-p é o medicamento com melhor resposta na cicatrização dessas feridas. E em decorrência do bloqueio o remédio não podia ser comercializado nos EUA, deixando de beneficiar os cidadãos norte-americanos. Penso que para o fim do bloqueio falta um ato de valentia política.

O senhor acha que Cuba tem sido bem sucedida no seu modelo educacional e cultural? E qual a leitura crítica o senhor faz? No que e como pode melhorar?

Sem dúvida teve melhora na qualidade da educação. Creio que o que se pode fazer para melhorar é investir na melhora da qualidade dos professores. Cem por cento da população cubana hoje pode estudar. Somos um povo instruído, mas não somos um povo culto. Acho importante o investimento na formação ética de valores e conduta.

Cuba se situa na região do Caribe, que, tradicionalmente possui forte ascendência da cultura norte-americana. O senhor acha que a Revolução Cubana teve êxito no distanciamento e resgate cultural. Ou a ascendência americana ainda persiste?

Em Cuba fomentamos o sentimento anti-imperialista, mas não antiamericano. Há diferença. Publicamos autores como Edgard Allan Poe, mantemos um Museu da Casa de Hemingway, onde o escritor norte-americano Ernest Hemingway morou. Então há a valorização da nossa cultura, mas respeito pela cultura de qualidade estrangeira. Mas hoje ainda há uma influência da cultura americana. Através das emissoras de língua espanhola, se consome seriados de baixa qualidade, sem senso crítico, reality shows, programas culturalmente medíocres. A maneira de combater isso é buscar informar os jovens, para que eles tenham referências e discernimento. Como diz Fidel, “ser culto é a única maneira de ser livre”. É o que buscamos.

Em sua opinião a juventude cubana de hoje é politizada? Ou o senhor acha que houve uma despolitização? O jovem cubano se preocupa com a manutenção do modelo político e cultural de Cuba? Há esse desejo na juventude?

Não se pode generalizar. Pode-se dizer que hoje há uma vanguarda na juventude cubana. De jovens que leem muito, que escrevem, que produzem pensamento e são politizados. Uma parcela da juventude ativa, que debate e que está bem comprometida em levar adiante o projeto revolucionário cubano. Mas também há segmentos de nossa juventude que se deixam ganhar por esse tipo de mensagem superficial, trazida pela TV, por enlatados, pela internet e por outros meios. E o caminho para se combater isso não é a censura, é o fortalecimento da cultura nacional. A sociedade cubana é mais heterogenia que as outras. Há a questão do emprego como uma preocupação da juventude, que está buscando trabalho em profissões que não são as profissões das quais se formaram. Acho que tem que se escutar o jovem. Eu prefiro um jovem crítico.

O senhor foi ministro da Cultura por 15 anos. Qual foi o projeto cultural implementado por Cuba na sua gestão?

O que fiz foi só dar continuidade. Armando Hart, que foi ministro da educação de Cuba, responsável pelo programa de alfabetização, de erradicação do analfabetismo, foi que iniciou tudo isso e fez um trabalho insuperável para os artistas. Temos como meta a democratização da cultura sem concessões. Fomentamos o acesso à cultura. Na literatura, Don Quixote, de Cervantes, foi considerado um marco, com prensagem de 500 mil exemplares, e era vendido em bancas, por 1 peso na década de 1960. Não adotamos uma política cultural “chauvinista” apesar da necessidade de resgate da nossa cultura. Criamos a Universidade para Todos, dentre outros programas de democratização. A ideia é fazer aliança com a vanguarda artística.

Recentemente, em junho de 2013, o senhor deu uma declaração na conferência do Centro Cultural de la Cooperación, na Argentina, onde afirmou que “a integração de nossas Américas, se não for cultural, não haverá integração. Pode haver integração comercial, tratados de grande transcendência, mas todo esse conjunto de ações termina sendo reversível sem uma plataforma de integração cultural. Sem esse respaldo (cultural) a integração é frágil”. Qual a integração, o diálogo cultural entre Cuba e a América Latina hoje? Fale-me sobre a Rede de Artistas e Intelectuais em Defesa da Humanidade.

Há de fato um esforço de aliança cultural. Se realmente se pretende construir na América Latina uma aliança que perdure, ligada por afetos, relações reais e diálogo, a cultura tem que estar presente. Os programas de aliança foram exitosos pela rede de distribuição de troca cultural. Há algum tempo, junto com representantes da Venezuela, Bolívia, podemos dizer que existia um Fórum de Ministros sobre o tema de alianças e distribuição cultural na América Latina, mas muito se falava, muito se discutia e em pouco resultava. Quando Cuba foi expulsa da OEA todos romperam, menos o México. Um ato de justiça poética. Hoje a América mudou muito e há melhores condições para o diálogo. A Rede de Artistas e Intelectuais é um caminho. Há um desafio tremendo, sei que poder haver traições, mas é um passo extraordinário.

O que o senhor acha da transição de abertura que Cuba passa no momento, na atual gestão de Raúl Castro. Há receio por parte de analistas políticos, de que a abertura política culmine em uma volta ao capitalismo. O senhor acha que há de fato essa possibilidade? Quais os impactos disso já podem ser vistos na identidade cultural Cubana?

Não há nenhuma possibilidade de que Cuba regresse ao capitalismo. Nos documentos estão estabelecidos os princípios do país se mantém na mão do Estado. As mudanças dizem respeito à gestão de não estatais; não se fala de privatização. Cuba não permite latifúndio. O conceito de privatização está excluído como política. Absolutamente. Portanto, não há nenhuma alternativa de retorno ao capitalismo. Estamos arrendando terras às cooperativas e famílias, e os camponeses têm a obrigação de fazer a terra produzir, porém, a propriedade permanece sendo do Estado e de todo o povo cubano. Ninguém vai ficar desamparado. A saúde gratuita para todos se mantém reduzidos os índices de mortalidade infantil. Fazemos uma medição de peso todas às crianças, para calcular os índices de nutrição e termos uma estatística. As famílias com crianças abaixo do peso recebem auxílio e são amparadas pelo Estado. Quantas tragédias se escondem atrás de estatísticas? O acesso à educação gratuita se mantém. A valorização e democratização da cultura continua sendo um elemento central e inegociável.

Por último, muito obrigada pela entrevista. Eu vejo que o senhor tem uma visão otimista. Como o senhor vê o futuro de Cuba para daqui a dez anos?

Não sou muito bom em futurologia… Mas prevejo uma Cuba socialista e soberana. Mais eficiente e mais produtiva. Com uma vida cultural intensa e diversificada. Uma Cuba com um sistema educacional eficiente, que transmite valores morais e éticos elevados. Que não dependa de petróleo, que possua uma economia renovada. Uma Cuba onde o consumo não esteja associado à felicidade. Que nosso modelo futuro tenha um componente de felicidade.