Deputados destacam legado da Revolução Russa

via Blog do Renato Rabelo

SESSÃO SOLENE REVOLUÇÃO DE OUTUBRO - 25-10-2017

A Revolução de Outubro de 1917 foi tema de sessão solene na Câmara dos Deputados

Assim como na Revolução Francesa, a reorganização da sociedade russa adveio dos desejos populares por mais participação, mais democracia, mais oportunidades e menos privilégios às classes dominantes na Rússia do Czar.

Para o deputado comunista Daniel Almeida (BA), muito do que se tem hoje de direitos foram inspirados e construídos a partir da experiência da União Soviética. “Portanto, comemorar 100 anos é resgatar essa possibilidade do novo, do revolucionário. Resgatar o sonho, da utopia se materializar”, enfatizou o parlamentar.

A forte presença das mulheres nas mais diversas lutas da história foi exaltada por Ana Maria Prestes, doutora em Ciência Política e representante da Fundação Maurício Grabois. “Já em 1917, Alexandra Kollontai era na época a única mulher membro do Comitê Central do Partido. E ela deixou uma pauta, uma agenda que nós mulheres do século 21 ainda tateamos. Em pouco tempo, ela fez com que a mulher russa tivesse direito ao aborto, ao divórcio civil, direito ao trabalho”.

Alexandra Mikhailovna Domontovich nasceu, em 31 de março de 1872. Foi figura histórica nas lutas das trabalhadoras russas por seus direitos, contra a exploração capitalista, o conservadorismo e o machismo.

De acordo com a presidente nacional do Partido Comunista do Brasil, deputada Luciana Santos (PE), a atualidade da resistência socialista está demonstrada na incapacidade do capitalismo de resolver as mazelas da desigualdade. “Nós vivemos o mundo da guerra, da concentração de renda, de bilhões que vivem abaixo da linha da pobreza. De um mundo em que o capital especulativo representa três vezes o PIB (Produto Interno Bruto) de todas as nações”.

“É um sistema que vem perdendo na geopolítica a sua força unipolar e criando vários pólos, entres eles a experiência do socialismo nos países em que esse está se desenvolvendo. Num momento como esse legados e lições precisam cada vez mais ser afirmadas”, disse Luciana.

O surgimento do socialismo alimentou no Brasil e no mundo a esperança de um futuro livre da exploração, da opressão e da miséria. A experiência soviética teve repercussão em todo planeta e impactou a formação dos Partidos Comunistas em todos os países, inclusive a criação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), fundado em 1922.

Entre as ideias poderosas que atravessaram o século passado, o socialismo apresentou ao mundo os princípios para a formação dos direitos sociais e dos trabalhadores. A Revolução Russa de 1917 foi responsável pela ruptura com o capitalismo, apresentando uma nova configuração do Estado que estivesse à serviço e fosse controlado pelo povo.

Fonte: PCdoB na Câmara

VENEZUELA: A DITADURA ONDE O POVO PARTICIPA DAS DECISÕES

Talvez sem o mesmo frisson da promulgação da Constituição Bolivariana de 1999, referendada por voto popular, assim como de outros referendos da era Chávez, a Venezuela promoverá neste domingo, 30/07, a votação para a eleição dos delegados da assembleia nacional constituinte convocada pelo presidente Nicolás Maduro.

A direita venezuelana entendeu a morte de Hugo Chávez como uma fenda de oportunidade política para, com patrocínio dos Estados Unidos, golpear a chamada Revolução Bolivariana.

Henrique Capriles, candidato opositor a Maduro, nunca aceitou a apertadíssima derrota eleitoral de 2013 (50,75% x 49,25%).

Desde então, o país foi mergulhado numa onda de violência e guerra econômica.

Os setores empresariais passaram a esconder os produtos das gôndolas dos supermercados para criarem um caos que justificasse alguma intervenção política e a consequente derrubada do governo.

Diante desse desgaste, a direita venezuelana venceu as eleições legislativas de 2015, na qual obteve amplíssima maioria e o pronto reconhecimento dos resultados pelo governo de Maduro.

Mesmo assim, insiste em dizer que há uma ditadura no país.

Conhecida como Arábia Saudita das Américas, a Venezuela somente teve seu contraste social alterado quando os lucros da exportação do petróleo passaram a ser investidos na transformação social do povo, que passou a ter acesso a casas, escolas e à segurança alimentar.

Entretanto, a guerra econômica provocada pela direita foi agravada pela crise internacional do petróleo no início de 2015, pois as divisas obtidas da importação diminuíram com a queda brusca do preço.

Para se ter uma ideia a Venezuela é membro da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

Com o objetivo de restabelecer a paz e criar uma nova matriz econômica que não dependa exclusivamente do petróleo, o presidente Nicolás Maduro convocou a assembleia nacional constituinte, com base nos artigos 347, 348 e 349 da Constituição, cujos 537 delegados serão eleitos neste domingo.

Primeiramente, o eleitor venezuelano votará num universo de 364 delegados em nível territorial, algo equivalente a um delegado municipal se as eleições fossem no Brasil.

Posteriormente, votará em um dos 173 delegados de nível nacional dentre os setoriais temáticos designados para a constituinte: empresários, camponeses e pescadores, pessoas com deficiência, estudantes, trabalhadores, representantes das comunas e dos conselhos comunais e aposentados.

Toda a votação é eletrônica e, terminada, um comprovante do voto é impresso e depositado na urna física, o que proporciona plena possibilidade de conferência, pois a contagem de ambas as urnas deve ser idêntica.

Todavia, sabemos que não adianta explicar para quem não quer entender.

No Brasil, terra mundial do desdém mesmo com prova em contrário, jamais permitirão a mínima compreensão do que se passa na Venezuela.

No primeiro país independente da América do Sul haverá um novo processo constituinte em menos de 20 anos no qual espera-se a participação de mais de 19 milhões de eleitores num país de 31 milhões de habitantes, enquanto aqui a atual Constituição, vilipendiada por um golpe de Estado, já foi emendada mais de 100 vezes sem qualquer participação popular.

Onde é a ditadura chavista-comunista-petrolífera-bolivariana?

Lá, claro.

A única ditadura no mundo onde o povo vota além de eleições periódicas.

Blog Chianéllico

Talvez sem o mesmo frisson da promulgação da Constituição Bolivariana de 1999, referendada por voto popular, assim como de outros referendos da era Chávez, a Venezuela promoverá neste domingo, 30/07, a votação para a eleição dos delegados da assembleia nacional constituinte convocada pelo presidente Nicolás Maduro.

A direita venezuelana entendeu a morte de Hugo Chávez como uma fenda de oportunidade política para, com patrocínio dos Estados Unidos, golpear a chamada Revolução Bolivariana.

Henrique Capriles, candidato opositor a Maduro, nunca aceitou a apertadíssima derrota eleitoral de 2013 (50,75% x 49,25%).

Desde então, o país foi mergulhado numa onda de violência e guerra econômica.

Os setores empresariais passaram a esconder os produtos das gôndolas dos supermercados para criarem um caos que justificasse alguma intervenção política e a consequente derrubada do governo.

Diante desse desgaste, a direita venezuelana venceu as eleições legislativas de 2015, na qual obteve amplíssima maioria e o pronto reconhecimento…

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Atração do IJC (SP), José Delgado mostra em show acústico ritmos e sonoridades da Venezuela e do Caribe

Um dos melhores expoentes da nova música popular da Venezuela, o cantor José Delgado, apresentará neste domingo, 30 de julho, o concerto Acústico Caribe para os amigos e frequentadores do Instituto Juca de Cultura (IJC), situada no bairro Sumaré, na zona Oeste de São Paulo. A partir das 17 horas, o público conhecerá ao som de um cuatro (instrumento de cordas venezuelano) e um violão (guitarra, em Espanhol) parte do repertório reunido em seis álbuns, o mesmo que deverá embalar a turnê pelo Brasil que incluirá, ainda, shows de Delgado no Rio de Janeiro, no Clube do Choro (Brasília/DF) e em Pirenópolis (GO).

Com mais de uma década de trajetória, o convidado do IJC destaca-se pelo canto que transita por gêneros nativos, caribenhos, jazz, rock e salsa, revelando sua versatilidade compositiva e interpretativa, características que o coloca entre os mais admirados da música moderna latino-americana.

A obra de Delgado também o ajuda nesta afirmação que para além do solo das Américas se estende a países da Europa e da África por ser ao mesmo tempo redentora de tradições populares e experimental, mesclando em suas composições formatos contemporâneos e urbanos. Mundo afora, este perfil já o colocou em palcos de festivais e de concorridos eventos lado a lado com renomados artistas e grupos, entre os quais o mineiro Pereira da Viola. A lista inclui, ainda, expressões da latinidade como Virulo (Cuba); Inti Illimani e Manuel García (Chile); Aquiles Baez, C4Trío, ​ Rafael “Pollo” Brito e ​ Víctor Morles (Venezuela), Kevin Johansen e Marcelo Ferrer (Argentina) e Marta Gómez (Colômbia), entre tantos outros.

José Delgado nasceu em Caracas, capital da Venezuela, no seio de uma família de quatro irmãos. A relação com a música, já na infância, recebeu fortes influências dos costumes do lar e dos gostos do pai – que se revelou a figura central para a inclinação artística do filho à medida que, nos primeiros anos do ainda garoto, em torno de um rádio, juntava todos na cozinha da casa para audições de cantos tradicionais e folclóricos venezuelanos, executados ao violão e ao cuatro, incentivando os meninos durante as rodas de cantoria a admirar e respeitar as tradições do país.

O incentivo paterno também foi fermento para José Delgado aprender a tocar cuatro e mandolina (bandolim) precocemente e a gostar de tangos, boleros, valsas peruanos e cumbias — hábito que despertou nele a paixão por mesclar ritmos aparentemente incongruentes. Já adolescente, empunhando um novo instrumento, o violão, passou a se dedicar às sonoridades urbanas como a salsa, o rock e o jazz. Cantar e tocar, entretanto, não resumem os predicados artísticos de José Delgado. Ele também estudou Teatro, como aluno de Artes da Universidad Central de Venezuela, período durante o qual atuou tanto como ator, quanto como músico, em diversas montagens.

Em 2001, por exemplo, compôs o elenco de El último Minotauro, do compatriota León Febres Cordero, e El Jardín de los Cerezos, de Chejov, ambas dirigidas por Eduardo Gil. Na temporada seguinte, acompanhou viagem do grupo Nicolás à Espanha. Em 2007, sob direção de José Antonio “Flako” Rojas, encenou Caminos. E entre 2009 e 2012 protagonizou Vuelta a casa, baseado em poemas de Ramón Palomares, peça para a qual compôs a trilha sonora, novamente sob direção de Eduardo Gil.

Nesta mesma época Delgado comprou a primeira guitarra, que usava para acompanhar suas montagens e o estimulou a compor as canções do futuro primeiro disco, La Ventana, de 2005. Gradativamente, evoluía profissional e artisticamente, participando do coletivo Trova Gaitera, no qual contracenava com Rafel “Pollo” Brito. Delgado é membro fundador do Colectivo La Cantera e La Liga y Tribu Caracas, organizações que buscam consolidar plataformas para produção artística independente.

Barulho d'Água Música

Um dos melhores expoentes da nova música popular da Venezuela, o cantor José Delgado, apresentará neste domingo, 30 de julho, o concerto Acústico Caribe para os amigos e frequentadores do Instituto Juca de Cultura (IJC), situada no bairro Sumaré, na zona Oeste de São Paulo. A partir das 17 horas, o público conhecerá ao som de um cuatro (instrumento de cordas venezuelano) e um violão (guitarra, em Espanhol) parte do repertório reunido em seis álbuns, o mesmo que deverá embalar a turnê pelo Brasil que incluirá, ainda, shows de Delgado no Rio de Janeiro, no Clube do Choro (Brasília/DF) e em Pirenópolis (GO). Com mais de uma década de trajetória, o convidado do IJC destaca-se pelo canto que transita por gêneros nativos, caribenhos, jazz,  rock e salsa, revelando sua versatilidade compositiva e interpretativa, características que o coloca entre os mais admirados da música moderna latino-americana.

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Por Jornalistas Livres: VENEZUELA: É A VELHA LUTA DE CLASSES QUE ESTÁ NAS RUAS!

De Caracas, para os Jornalistas Livres

Quem há de dizer que a Venezuela é uma Ditadura? Se alguém sentia falta de uma consulta popular, o país realizou duas no mesmo dia! Uma foi convocada pelo governo do presidente Nicolás Maduro, na forma de uma simulação da eleição para os deputados da Assembléia Nacional Constituinte, que deverá ocorrer de verdade no próximo dia 30 de julho. A outra foi convocada pela Mesa de Unidade Democrática (MUD), a frente de partidos de oposição ao chavismo.

Foi um domingo alegre e iluminado em Caracas. Quente, como sempre. As ruas estavam cheias de famílias, já que 16 de julho é o Dia das Crianças venezuelano. Meninas e meninos com os rostos pintados como bichinhos, em roupas elegantes, viam-se por toda a cidade. As lojas estavam abertas. Nada havia que denunciasse a guerra civil ou os enfrentamentos dramáticos, cheios de sangue, ódio e ira, vistos todos os dias nas televisões e grandes jornais do Brasil. Mas a disputa renhida estava presente.

1º CAPÍTULO
A ATIVIDADE DO POVO POBRE

Há semelhanças e dessemelhanças cruciais entre o golpe que ocorreu no Brasil há um ano e o que pretende se implantar agora na Venezuela. Em ambos os países, o poder econômico quer assumir o comando e impor uma cartilha neoliberal em que apenas os ricos rentistas podem se dar bem. A diferença está no povo pobre que, no país de Chávez, está organizado em comunas de bairros, em movimentos sociais e no PSUV (o Partido Socialista Unido de Venezuela).

É impossível conversar com os defensores da República Bolivariana inaugurada por Chávez há 19 anos, sem que apareçam nas falas os “interesses nacionais”, a “Pátria Grande”, o petróleo (um orgulho, já que nacionalizado), os “direitos dos trabalhadores” e o “imperialismo predador” a ser combatido.

Todos falam em luta de classes. Dizem que o núcleo político da oposição reside na defesa de interesses espúrios por parte da burguesia e de uma classe média que tem os olhos e o desejos postos em Miami. Bem informados, falam do golpe ocorrido no Brasil, da condenação de Lula pelo juiz Sergio Moro. Defendem Lula com emoção e gratidão.

A Constituinte proposta por Nicolás Maduro, o sucessor de Chávez, tem tudo a ver com esse povo politizado e dotado de profunda consciência de classe. Pretende “aperfeiçoar o sistema econômico, social e político” e realizar uma extensa reforma política no país. Na prática, deverá radicalizar na via de transformação do Estado Venezuelano, reformando a Constituição de 1999, criada por iniciativa de Hugo Chávez.  O propósito é adequar o Estado, de modo a torná-lo mais e mais um espelho da maioria da população do país, que é pobre e mestiça.

Jornalistas Livres percorreram a fila formada diante do Liceu Andrés Bello, no centro de Caracas. Trata-se de colégio icônico, um dos primeiros do país, e representa o sonho republicano de uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos. Lá, diante de um gigantesco e lindo mural retratando a luta popular desde os tempos da colônia, uma fila animadíssima de cidadãos pobres e orgulhosos explicava porque participavam da simulação eleitoral convocada por Maduro.

A simulação foi organizada pelo Conselho Nacional Eleitoral, o CNE, que tem na Venezuela autoridade equivalente à do nosso Tribunal Superior Eleitoral. Tudo computadorizado, como acontece no Brasil, mas no final o eleitor retira seu voto e o deposita numa urna física, de modo a ser possível fazer recontagens de votos, em caso de suspeita de fraude.

Para Maduro, a Constituinte é a única possibilidade de levar paz ao país, porque criaria uma instância de poder para decidir os rumos do Estado venezuelano. Hoje, vive-se lá uma grave crise econômica, social e política decorrente da corrupção, da sabotagem econômica e do uso de táticas terroristas pelos que pretendem reimplantar um modelo neoliberal e privatista. As vitrines da loja de Departamentos Traki, no centro da cidade, por exemplo, exibem latas de conservas e embalagens de artigos de higiene e limpeza em arranjos caprichosos, como se jóias fossem. Nas farmácias faltam medicamentos e não se sabe quando eles estarão à disposição.
Para o chavismo, a Constituinte é a forma de resolver esses problemas da vida cotidiana, além de resgatar para o espaço da discussão política setores hoje descontentes com a adoção de táticas violentas por parte da oposição. Pacificar o país, que já conta mais de 112 mortos em conflitos e atentados de matriz terrorista, é um dos objetivos. É nisso que acreditam os partidários do governo que foram às urnas neste domingo para treinar o voto. Dia 30 de julho, o voto será para valer.

Para quem achava que o jogo estava em vias de terminar na Venezuela, a professora universitária Nilze Almendraz, 62 anos, vestida com camiseta negra em que se vê o rosto imenso de Simon Bolívar, garante: “Estamos apenas começando! E estamos dispostos dar nossas vidas para defender o sonho de nosso comandante máximo, Hugo Chávez. Porque é o nosso sonho também. ”

Oposicionistas ateiam fogo nas cédulas e nas atas eleitorais, ao fim de seu “plebiscito informal”

A ATIVIDADE DA OPOSIÇÃO

Jornalistas Livres acompanharam a atividade oposicionista em dois pontos de Caracas: em Sabana Grande e na praça Carabobo, na região central. Concentrações da classe média branca, cem pessoas em cada uma delas, organizavam o seu “plebiscito” como se fosse a eleição do representante de classe na escola. Em vez de listas de votantes, folhas de papel sulfite A4, que cada “eleitor” preenchia mediante a apresentação de sua cédula de identidade –válida ou vencida, diga-se.

A pessoa podia votar fora de seu domicilio eleitoral, como constatamos ao entrevistar a jovem estudante de letras da Universidade Central de Venezuela, Susan Ovalle, 26 anos. Moradora de Catia, periferia pobre de Caracas, perto do aeroporto de Maiquetía, ela votou em Sabana Grande. Como evitar que pessoas votem várias vezes?, perguntamos. “Confiamos na honestidade dos nossos”, respondeu ela. Sei.

O plebiscito organizado pelos oposicionistas tinha três perguntas, todas em aparente defesa da Constituição de 1999, que esses mesmos setores combateram antes, quando Chávez a promulgou. Na prática, o objetivo era inviabilizar politicamente a convocação da nova Assembléia Nacional Constituinte, iniciativa de Nicolás Maduro, conforme garante a própria Constituição de 1999:

1. Você rechaça e desconhece a realização de uma constituinte proposta por Nicolás Maduro sem a aprovação prévia do povo da Venezuela?
2. Você pede à Força Armada Nacional e a todo funcionário público que obedeça e defenda a Constituição de 1999 e respalde as decisões da Assembléia Nacional?
3. Você aprova que se proceda à renovação dos Poderes Públicos de acordo com o estabelecido na Constituição e à realização de eleições livres e transparentes, assim como a conformação de um governo de União Nacional para restituir a ordem constitucional?

A idéia dos oposicionistas era recolher um número significativo de respostas “Sim” às três questões, de modo a deslegitimar a presidência de Nicolás Maduro e derrubar o que eles chamam de “Ditadura Chavista”. Nenhuma negociação, nenhum plano a não ser a explosão do atual governo.

Interessante o conceito de “Ditadura”, já que é ampla a liberdade de manifestação e expressão dos opositores, inclusive na televisão e nos meios impressos, em que fizeram abertamente campanha para chamar à participação no “plebiscito informal” deste domingo. Também é curioso que chamem de “ditador” a um presidente que, como Maduro, foi eleito pela maioria do povo venezuelano em eleições das quais a oposição participou e às quais convalidou. Ressalte-se que Maduro está ainda a um ano de ter seu mandato encerrado.

Incongruências à parte, o problema principal da oposição foi a total desorganização da consulta que realizou sem o apoio logístico do Conselho Nacional Eleitoral, o CNE, que tem na Venezuela autoridade equivalente à do nosso Tribunal Superior Eleitoral.

Piorando o que já estava precário, em vez de urnas, os votos foram recolhidos em caixas de sabão e de enlatados. Não havia lacre.
A deputada Tamara Adrian, deputada da Assembleia Nacional pelo partido Vontade Popular, de oposição a Maduro, explicou pela manhã que todos os votos recolhidos pelos oposicionistas seriam incinerados “por questões de segurança”. Foi o que de fato aconteceu, e logo deu para entender o porquê.

Tratava-se de evitar que alguém tivesse a inconveniente idéia de contar os votos ou checar a lista de votação para evitar fraudes. E foi assim: nacionalmente, a oposição combinou que, tão logo se apurasse o resultado de cada urna, todo o registro da votação –as cédulas inclusive—seriam queimadas. Isso aconteceu já na noite de domingo. Sem condições de checagem, a oposição disse que obteve mais de 7 milhões de votos, dos quais 98,4% rejeitando a Assembleia Nacional Constituinte proposta pelo presidente Nicolás Maduro. Na realidade, mesmo com todas as fraudes que possam ter ocorrido e que jamais poderão ser investigadas, o número de votantes ficou bem aquém dos 11 milhões que eram a meta da oposição. Mas isso não impediu o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Julio Borges, antichavista ferrenho, de proclamar ao final da votação neste “plebiscito” de fancaria: “O mandato de Nicolás Maduro está praticamente revogado”.

Na praça Carabobo em que a oposição realizava sua “consulta”, cerca de 10 homens portando paus sentaram-se sobre a sinalização do Metrô de Caracas. Batiam fortemente no metal, avisando que não estavam para brincadeiras. Enquanto isso, mulheres agitavam bandeiras para os veículos que passavam na rua. Carrões SUV e caminhonetes saudavam o protesto oposicionista, enquanto a turma que passava de ônibus nem se dignava a olhar para o que ocorria no espaço dominado pela direita.

Definitivamente, na Venezuela, a cisão é de classes. E todos têm consciência disso.

O manifesto censurado de Albert Camus

Em 1939, o escritor Albert Camus quis publicar um vibrante texto que convidava os jornalistas para permanecerem livres.

Albert Camus, foto de Henri Cartier-Bresson

Por Albert Camus

“Hoje, é difícil discutir a liberdade de imprensa sem ser acusado de extravagância, sem ser acusado de ser Mata Hari, sem se ver convencido de ser sobrinho de Stalin.

No entanto, essa liberdade, entre outras, nada mais é do que é uma das faces da liberdade plena e entenderemos a nossa determinação para defendê-la se estivermos dispostos a admitir não há outra maneira para realmente ganhar a guerra.

A liberdade, certamente, tem seus limites. Ainda assim, eles devem ser reconhecidos livremente. A propósito dos obstáculos erguidos, hoje, à liberdade de pensamento, nós já dissemos, além do mais, tudo o que pudemos dizer e diremos de novo, e à exaustão, tudo aquilo que nos será possível dizer.

Em particular, nunca deixará de nos espantar, uma vez imposto o princípio da censura, que a reprodução dos textos publicados na França e visados por censores metropolitanos sejam proibidos ao Soir Républicain [jornal publicado em Argel, no qual Albert Camus foi editor na época], por exemplo. O fato, a este respeito, de um jornal depender do humor ou da competência de um homem mostra melhor do que qualquer outra coisa o grau de inconsciência a que chegamos.

Um dos bons preceitos de uma filosofia digna desse nome é nunca se derramar em choro inútil diante de um estado de coisas que não mais pode ser evitado. A questão na França de hoje não é de se saber como preservar a liberdade de imprensa. Mas de procurar como, face à supressão destas liberdades, um jornalista pode permanecer livre. O problema não interessa mais à comunidade. Ele diz respeito ao indivíduo.

E, justamente, o que gostaríamos de definir aqui são as condições e formas pelas quais, mesmo dentro da guerra e suas sujeições, a liberdade pode ser, não apenas preservada, mas ainda manifestada. Estes meios são em número de quatro: lucidez, recusa, ironia e teimosia.

A lucidez implica resistência aos impulsos do ódio e ao culto da fatalidade. No mundo da nossa experiência, é certo que tudo pode ser evitado. A própria guerra, que é um fenômeno humano, pode, em todos os momentos, ser evitada ou encerrada por meios humanos. Basta conhecer a história dos últimos anos da política europeia para ter certeza de que a guerra, qualquer que ela seja, tem causas óbvias. Esta visão clara das coisas exclui o ódio cego e desespero decorrentes.

Um jornalista livre, em 1939, não se desespera e luta por aquilo que acredita ser verdadeircomo se sua ação pudesse influenciar o curso dos acontecimentos. Ele não publica qualquer coisa que possa incitar ao ódio ou causar desespero. Tudo isso está em seu poder.

Diante da crescente onda de estupidez, é necessário também que se imponha algumas recusas. Nem todas as restrições do mundo farão com que um espírito adequado aceite ser desonestoOra, por pior que conheçamos o mecanismo da informação, é fácil verificar a autenticidade de uma notícia. É a isso que um jornalista livre deve dar total atenção. Pois, se ele não pode dizer tudo o que pensa, a ele é possível não dizer o que não acredita ou julgue falso.

é assim que um jornal livre é medido, tanto pelo que ele diz quanto por aquilo que não diz. Esta liberdade inteiramente negativa é de longe a mais importante de todas, se soubermos mantê-laPois ela prepara o advento da verdadeira liberdade. Assim, um jornal independente dá a fonte de suas informações, ajuda o público a avaliá-las, repudia a doutrinação, remove comentários violentos e injuriosos, supera a padronização das informações através de comentários, em suma, serve à verdade na medida humana de suas forças. Esta medida, por relativa que seja, permite que ele, ao menos, recuse o que nenhuma força do mundo poderá fazê-lo aceitar: servir a mentiras.

Isso nos leva à ironia. Pode-se postular quem, em princípio, uma mente que tem o gosto e os meios para impor restrições é impermeável à ironia. Nós não vemos Hitler, para dar um exemplo entre tantos, usar a ironia socrática. Decorre daí que a ironia permanece uma arma sem precedentes contra aqueles demasiadamente poderosos.

Ela complementa a recusa na medida em que permite, não mais rejeitar o que é falso, mas muitas vezes dizer o que é verdade. Um jornalista livre, em 1939, não tem muitas ilusões sobre a inteligência dos que oprimem. Ele é pessimista no que se refere homem.

Uma verdade enunciada em tom dogmático é censurada nove em cada dez vezes. A mesma verdade falada agradavelmente é censurada, tão somente, em cinco de cada dez vezes. Esta tendência simboliza quase exatamente as possibilidades de inteligência humana. Ela também explica que os subjugados jornais franceses, como Le Merle ou Le Canard, consigam publicar regularmente os artigos corajosos, como sabemos. Um jornalista livre, em 1939, é necessariamente irônico, ainda que o seja muitas vezes contra a sua vontade. Mas a verdade e a liberdade são senhoras exigentes posto que têm poucos amantes.

Esta atitude da mente, definida brevemente, é claro que não pode eficientemente se sustentar sem um mínimo de obstinação. Muitos obstáculos são colocados à liberdade de expressão. Eles não são o que, mais severamente, pode desencorajar um espírito. Pois as ameaças, as suspensões, os processos normalmente usados na França têm o efeito oposto ao que se propõem. Mas deve-se admitir que são obstáculos desencorajadores: a constância na estupidez, a covardia organizada, a desinteligência agressiva, e assim por diante. Esse são os maiores obstáculos que devem ser superados. A obstinação é, aqui, virtude cardinal. Por um paradoxo curioso, mas evidente, ela se coloca a serviço da objetividade e da tolerância.

Aqui está um conjunto de regras para preservar a liberdade mesmo dentro da servidão. E então? Você perguntará. Depois? Não sejamos demasiado apressados. Caso cada francês esteja disposto a manter em sua esfera tudo o que ele acredita ser verdadeiro e justo, se ele quiser fazer sua pequena parte na manutenção da liberdade, resistir ao abandono e expressar sua vontade, então e só então, esta guerra será vencida, no sentido mais profundo da palavra.

Sim, é frequente que um espírito livre deste século faça, a contragosto, sentir sua ironia. O que encontrar de agradável neste mundo em chamas? Mas a virtude do homem é conservar-se firme em face de tudo aquilo que o nega. Ninguém quer recomeçar dentro de vinte e cinco anos a dupla experiência de 1914 e 1939. É preciso, portanto, experimentar ainda um método inteiramente novo que seria a justiça e a generosidade. Mas estas são expressas apenas em corações já livres e em espíritos ainda clarividentes. Formar estes corações e espíritos, despertá-los acima de tudo, é a tarefa, ao mesmo tempo, modesta e ambiciosa que cabe ao homem independente. É preciso cumpri-la sem enxergar mais adiante. A história levará em conta esses esforços, ou não. Mas eles terão sido feitos.”

Tradução por César Locatelli, especial para os Jornalistas Livres

Texto publicado no Le Monde em 2012, em http://www.lemonde.fr/afrique/article/2012/03/18/le-manifeste-censure-de-camus_1669778_3212.html