NA ONU, RAÚL CASTRO DENUNCIA CLIMA GOLPISTA NA AMÉRICA LATINA

Autor: Dario Pignotti

Presidente cubano defendeu avanços sociais no Brasil e atacou os golpes brancos engendrados no continente contra governos de esquerda.


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O presidente de Cuba, Raúl Castro denunciou na Assembleia da ONU o clima de desestabilização contra governos democráticos da América Latina.

Ele usou seu discurso para defender o governo da Venezuela das iniciativas desestabilizadoras de alguns setores, e também o governo do Equador, nação que vem sendo “alvo do mesmo roteiro” opositor. Por outro lado, também usou seu palanque para celebrar as conquistas sociais alcançadas pela presidenta brasileira Dilma Rousseff e expressou seu apoio à demanda dos países caribenhos por uma reparação pelos anos de escravidão que parte de sua população sofreu.

Raúl exigiu da comunidade internacional que busque na pobreza e na desigualdade a origem dos conflitos gerados pelo colonialismo e pelo assalto aos recursos das populações nativas, pelo imperialismo e pela divisão das esferas de influência. Em seu primeiro discurso numa Assembleia das Nações Unidas (ONU), Castro – que não se esqueceu da luta dos argentinos para recuperar a soberania das Ilhas Malvinas –, lembrou que a primeira meta traçada pela organização era a de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra e edificar uma nova forma na qual os países pudessem se relacionar, favorecendo a paz e o desenvolvimento. Porém, muito pelo contrário, o resultado foi que os conflitos se multiplicaram. “Desde então, passaram a ser constantes as guerras de agressão, a intervenção em assuntos internos dos Estados, a derrubada de governos soberanos através da força ou dos denominados ‘golpes suaves’”, afirmou Castro, insistindo em que a militarização do ciberespaço e o uso das tecnologias da informação e das comunicações para agredir a outros Estados de forma disfarçada e ilegal são inaceitáveis.

O mandatário cubano lamentou que o compromisso inicial da ONU, de promover o progresso social e elevar o nível de vida dos povos de todos os países, continue sendo uma quimera, e contrapôs a situação das 795 milhões de pessoas que sofrem com a fome no mundo com as cifras dos gastos realizados na área militar, que alcançam 1,7 milhão de dólares. Após reivindicar a conformação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e a declaração da América Latina como zona de paz, o líder cubano enumerou uma lista de gestos de solidariedade do seu país para com as nações da região.

Castro não perdeu a chance de usar suas palavras para criticar a União Europeia, cujas políticas são responsáveis, segundo ele, pelas ondas migratórias provocadas nas últimas semanas, com refugiados que se deslocam em massa desde países do Oriente Médio e do norte da África. “A União Europeia deve assumir de forma plena e imediata as suas responsabilidades para com a crise humanitária que ajudou a gerar”, sentenciou.

Ao mesmo tempo, condenou as distorções a respeito da promoção e proteção aos direitos humanos para validar e impor decisões políticas. E se colocou ao lado da Rússia, país com o qual os Estados Unidos mantêm diferenças claras sobre como solucionar a crise na Síria e a ocupação de territórios na Ucrânia. Reclamou inclusive que Porto Rico, nação associada aos Estados Unidos, “possa ser livre e independente, depois de mais de um século submetida à dominação colonial”. Castro valorizou o acordo nuclear entre os países do ocidente com o Irã, condenou o militarismo, a pobreza e o consumismo, e opinou que os países têm diferentes responsabilidades em relação às mudanças climáticas – tema que com o qual o seu irmão Fidel já se preocupava em 2000, segundo ele mesmo recordou ontem.

Na primeira visita do presidente de Cuba aos Estados Unidos em mais de 50 anos, ele se reuniu em Nova York com o ex-presidente estadunidense Bill Clinton e com o governador e o prefeito novaiorquinos, Andrew Cuomo e Bill de Blasio. Depois, teve um encontro com um grupo de empresários e executivos locais encabeçado pelo presidente e pela vice-presidenta da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Tom Donohue e Jodi Bond.

O líder cubano agradeceu o apoio quase unânime recebido por parte da comunidade internacional em favor do fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos sobre Cuba há mais de meio século, e antecipou que a ilha seguirá apresentando o projeto na ONU até conseguir uma vitória e anular a medida. Nesse sentido, Castro insistiu que não haverá relações normais com os Estados Unidos até que se termine o bloqueio, se devolva o território ocupado pela Base Naval de Guantánamo, que se interrompam as transmissões ilegais de rádio e televisão desde Miami, os planos desestabilizadores e se compense a ilha pelos danos humanos e econômicos que ainda sofre. Visando a reunião de hoje, com Obama, somente a posição sobre o embargo parece ter um ponto em comum.

As palavras do chefe de Estado cubano provocaram muitos aplausos do plenário de presidentes, e Raúl Castro foi incisivo, embora menos que Fidel. Em apenas 15 minutos, seu discurso esteve longe do tempo normalmente utilizado por seu irmão em sua primeira intervenção na Assembleia Geral da ONU em 1960 – que marcou um recorde, ao falar por 269 minutos, com uma mensagem de crítica contundente contra os Estados Unidos –, e apontou seus questionamentos às políticas imperialistas, sem mencionar diretamente nem os Estados Unidos nem o presidente norte-americano Barack Obama.

Entretanto, o mandatário cubano aproveitou sua primeira aparição diante da Assembleia para analisar os contrapontos que mantêm com os Estados Unidos, apesar da aproximação diplomática. Agora o contexto é outro, devido ao processo de descongelamento das relações, embora as diferenças ideológicas continuem. Castro as expôs com claridade, num ato que demonstra o regresso da ilha ao cenário maior da política mundial.

Tradução: Victor Farinelli

Fonte:  Carta Maior

Raúl e Obama na #ONU: Encontro historico.

O mandatário cubano, Raúl Castro pediu o fim do bloqueio contra a ilha na ONU

Presidente cubano fala pela primeira vez na Assembleia Geral da ONU.
Ele comentou sobre situação de diversos países e apoiou Dilma.

O presidente de Cuba Raúl Castro fez nesta segunda-feira (28) seu primeiro discurso na Assembleia Geral da ONU, um discurso breve (menos de 20 minutos), mas ainda assim histórico.

O mandatário cubano pediu o fim do bloqueio contra a ilha e “alfinetou” os americanos na questão de Porto Rico, pedindo sua independência do que chamou de dominação colonial.

Em julho, EUA e Cuba retomaram suas relações diplomáticas e abriram embaixadas nos respectivos territórios. No entanto, o Bloqueio econômico ainda vigora e seu fim depende da aprovação do Congresso dos EUA. Nesta segunda mais cedo, o presidente americano Barack Obama também defendeu o levantamento do bloqueio.

“Depois de 56 anos, as relações diplomáticas foram restabelecidas entre Cuba e os EUA”, diss Raúl Castro. “Agora se dá início a um longo e complexo processo até à normalização das relações. Isso será alcançado quando se coloque fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro; se devolva à Cuba o território ocupado ilegalmente na base naval de Guantánamo; se acabe com as transmissões de rádio e televisão e o programa de subversão e desestabilização contra a ilha; e se compense nosso povo pelos danos humanos e econômicos que ainda sofre”.

Raúl Castro também lembrou que 188 países apoiaram o fim do embargo diante da ONU. “Continuaremos apresentando o projeto de resolução: “Necessidade de romper o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba”

Ttambém citou a presidente Dilma: “Reiteramos nosso apoio solidário à presidenta Dilma Rousseff e ao povo do Brasil na defesa de suas importantes conquistas sociais e da estabilidade do país”.

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O presidente de Cuba Raul Castro fala na assembleia geral da ONU (Foto: Reprodução/ONU)

Sobre a crise migratória internacional, o presidente cubano disse que a Europa tem responsabilidade e precisa assumi-la: “A União Europeia deve assumir de maneira plena e imediata suas responsabilidades pela crise humanitária que ajudou a gerar.”

Para Raúl Castro, o povo sírio “é capaz de resolver por si mesmo” os seus problemas e criticou as “intervenções externas” no país. “Renovamos nossa confiança em que o povo sírio é capaz de resolver por si mesmo suas diferenças”, disse.

Ao encerrar o seu discurso, Raúl citou o irmão Fidel Castro, ex-dirigente da ilha, que disse que se deve combater a fome, as doenças, a pobreza e a destruição dos meios naturais com urgência antes que seja muito tarde.

Com informacão dos meios da imprensa brasileira.

Contra o bloqueio da história

27 de Setembro de 2015

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Autor: Paulo Moreira Leite.

O discurso de Raul Castro na ONU, o primeiro depois que se tornou chefe do governo de Cuba, é a face visível de uma iniciativa diplomática mais profunda. Há várias semanas se encontra em circulação, nos meios diplomáticos, uma proposta de resolução do governo cubano que condena o bloqueio econômico imposto pela Casa Branca à Ilha em 1961, como uma tentativa de sufocar a revolução liderada por Fidel Castro pelo estrangulamento da economia do país.

Não há dúvida, entre especialistas, que essa resolução, que deverá ser votada em Assembléia Geral em 27 de outubro, deve ser aprovada por larga margem. Há duas décadas, quando o ambiente político internacional era outro, o bloqueio foi condenado por 188 votos e apenas dois países deram seu voto contra a resolução cubana  — Estados Unidos e Israel.

Em 2015, Havana cogita a hipótese — apenas uma hipótese, lembre-se — de que o governo de Barack Obama se abstenha. Caso essa possibilidade venha a ser confirmada, será uma das maiores vitórias diplomáticas do governo cubano em meio século de existência. Até por isso, ela é vista com extrema cautela, aquela que recomenda evitar otimismos exagerados.

Embora o restabelecimento de relações diplomáticas entre Havana e Washington tenha contribuído para a criação de um ambiente civilizado entre dois países soberanos, o bloqueio econômico não apenas segue de pé, sem alterações visíveis, mas tem sido renovado por medidas recentes. Isso inclui não só iniciativas que atingem empresas norte-americanas, mas também aquelas que, propriedade de acionistas estrangeiros, cultivam negócios com Cuba. Isso se faz através de um conjunto de medidas punitivas previstas numa lei chamada Helms-Burton. Aprovada em 1996 pelo Congresso dos Estados Unidos, ela assegura, ao governo do país, poderes para punir parceiros estrangeiros de Cuba.

Em março de 2015, seis meses depois do reestabelecimento de relações diplomáticas, um banco alemão, Commerzbank, recebeu uma multa de US$ 1,7 bilhão do governo norte-americano, em função de suas relações com Cuba. Em junho, o banco francês BNP-Paribas recebeu uma multa de 8 bilhões de dólares — sem precedentes na história das transações financeiras do planeta para casos semelhantes — pelo mesmo motivo. Em fevereiro de 2015, uma subsidiária do Santander, no México, se recusou a efetuar um pagamento de 68 000 euros, com o qual Cuba pretendia quitar despesas como integrante do Centro de Estudios Monetários Latino-Americanos. Depois de mudar um escritório regional que funcionava no México para os Estados Unidos, a Bayer deixou de fornecer dois produtos — Lopramide 300 e 370 — que são empregados no diagnóstico de patologias graves.

O caráter político do bloqueio é um fato demonstrado historicamente. Seus objetivos foram explicitados  num vergonhoso memorando de abril de 1960, assinado por um dos hierarcas do Departamento de Estado, Lester Marroy, e mantido em segredo por décadas, até que pode ser desclassificado com base na legislação que permite o acesso a documentos oficiais. Numa argumentação explícita de quem declara guerra a partir de instrumentos econômicos, o memorando reconhece, em primeiro lugar, “o apoio da maioria dos cubanos a (Fidel) Castro”. Recorda que “não existe uma oposição política efetiva no país” e, conclui, como se fosse um teorema simples de matemática, que “o único meio possível para fazer (o governo) perder o apoio interno é provocar a desilusão e o desalento através da insatisfação econômica e da penúria.” O memorando diz ainda que: “é preciso por em prática rapidamente todos os meios possíveis para enfraquecer a vida econômica.” Aconselha também a negar a Cuba “dinheiro e subsídios com o fim de reduzir os salários, com o objetivo de provocar fome, desespero e a queda do governo.”

O fracasso dessa brutalidade de grande potencia, que trouxe um custo estimado pelo governo de Havana em US$ 833 bilhões de dólares contra um país que administra um PIB de US$ 54 bilhões (dados de 2010) envolve vários aspectos.

Contribui para questionar o discurso liberal que costuma ser apresentado como a doutrina oficial do governo o norte-americano em negociações diplomáticas. Mostra a subordinação da economia dos dois países a interesses de natureza política. A partir da legislação de 1996, a situação se agravou. Ao impor seus interesses particulares sobre os negócios de outros países, a política de sabotagem contra o governo cubano transformou num ato imperial — contra empresas de países aliados, inclusive de países como Alemanha e França.

Na América Latina, a solidariedade ou rejeição ao regime cubano tornou-se uma linha divisória para Washington, que, nos anos 1960, passou a trabalhar para derrubar governos que não se alinhassem a seu programa de sabotagem e isolamento do governo cubano. Os bons estudiosos do golpe de 64 mostram que a deposição de Goulart teve vários motivos — mas o motivo decisivo foi a recusa de Jango em integrar uma aliança contra Fidel Castro e seu regime.

Essa herança  política de mais de meio século explica a violenta obsessão anti-cubana da direita brasileira, que faz aparições frequentes em protestos em discursos no Congresso e também em protestos de rua, como ocorreu no xingatório contra João Pedro Stédile em Fortaleza.

Não é de surpreender que o próprio Obama tenha admitido o fracasso dessa política. “Esses últimos cinquenta anos demonstraram que o isolamento não funcionou.” Para o governo norte-americano, “a política estadunidense em relação a Cuba isolou os Estados Unidos de seus sócios regionais e internacionais, limitou a capacidade de influência no continente americano e impediu o uso de toda uma série de instrumentos disponíveis para os Estados Unidos, com a finalidade de promover uma mudança positiva em Cuba”.

Não se trata de uma opinião impopular, mesmo nos Estados Unidos de hoje. Embora a comunidade de exilados cubanos tenha uma imensa capacidade de fazer barulho, a aprovação da retomada de relações entre Havana e Washington cresceu 10 pontos de janeiro para cá, e hoje é aprovada por 71% dos consultados, diz uma pesquisa do Pew Research Center. O mesmo levantamento diz que 56% dos eleitores que se definem republicanos são favoráveis a aproximação com Cuba, apesar do discurso anticomunista dos líderes do partido.

Uma das novidades da resolução em discussão nos meios diplomáticos é que ela tem caráter mandatário. Não se limita a condenar o “bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América a Cuba” mas defende que sejam encaminhadas medidas concretas para se encerrar uma política diplomática que só se explica como ato de sabotagem contra um país, um governo e a soberania de um povo.

Nos próximos meses, é possível que o debate tenha outra temperatura, em função da campanha presidencial — onde os votos da Flórida, reduto de boa parte dos exilados cubanos e seus descendentes, tem um peso importante no sistema de eleições indiretas que escolhe o presidente dos Estados Unidos.

Você pode ter qualquer opinião sobre o regime cubano, sobre Raul Castro, Fidel, Che Guevara, o que for. Também pode achar que o comunismo foi um sonho que deu errado, um pesadelo que nunca podia ter dado certo ou nem uma coisa nem outra — mas ajudou uma parcela importante da raça humana a viver um pouco melhor e andar de pé. Este não é o debate.

Não há duvida, porém, que a roda do futuro  caminha contra o bloqueio.  Não é um movimento contra uma ideia, um governo, um sistema. É uma insustentável operação contra a História.  Só não vê quem não quer — ou não pode.

Fonte: https://www.brasil247.com/pt/blog/paulomoreiraleite/198550/Contra-o-bloqueio-da-hist%C3%B3ria.htm