Deputados destacam legado da Revolução Russa

via Blog do Renato Rabelo

SESSÃO SOLENE REVOLUÇÃO DE OUTUBRO - 25-10-2017

A Revolução de Outubro de 1917 foi tema de sessão solene na Câmara dos Deputados

Assim como na Revolução Francesa, a reorganização da sociedade russa adveio dos desejos populares por mais participação, mais democracia, mais oportunidades e menos privilégios às classes dominantes na Rússia do Czar.

Para o deputado comunista Daniel Almeida (BA), muito do que se tem hoje de direitos foram inspirados e construídos a partir da experiência da União Soviética. “Portanto, comemorar 100 anos é resgatar essa possibilidade do novo, do revolucionário. Resgatar o sonho, da utopia se materializar”, enfatizou o parlamentar.

A forte presença das mulheres nas mais diversas lutas da história foi exaltada por Ana Maria Prestes, doutora em Ciência Política e representante da Fundação Maurício Grabois. “Já em 1917, Alexandra Kollontai era na época a única mulher membro do Comitê Central do Partido. E ela deixou uma pauta, uma agenda que nós mulheres do século 21 ainda tateamos. Em pouco tempo, ela fez com que a mulher russa tivesse direito ao aborto, ao divórcio civil, direito ao trabalho”.

Alexandra Mikhailovna Domontovich nasceu, em 31 de março de 1872. Foi figura histórica nas lutas das trabalhadoras russas por seus direitos, contra a exploração capitalista, o conservadorismo e o machismo.

De acordo com a presidente nacional do Partido Comunista do Brasil, deputada Luciana Santos (PE), a atualidade da resistência socialista está demonstrada na incapacidade do capitalismo de resolver as mazelas da desigualdade. “Nós vivemos o mundo da guerra, da concentração de renda, de bilhões que vivem abaixo da linha da pobreza. De um mundo em que o capital especulativo representa três vezes o PIB (Produto Interno Bruto) de todas as nações”.

“É um sistema que vem perdendo na geopolítica a sua força unipolar e criando vários pólos, entres eles a experiência do socialismo nos países em que esse está se desenvolvendo. Num momento como esse legados e lições precisam cada vez mais ser afirmadas”, disse Luciana.

O surgimento do socialismo alimentou no Brasil e no mundo a esperança de um futuro livre da exploração, da opressão e da miséria. A experiência soviética teve repercussão em todo planeta e impactou a formação dos Partidos Comunistas em todos os países, inclusive a criação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), fundado em 1922.

Entre as ideias poderosas que atravessaram o século passado, o socialismo apresentou ao mundo os princípios para a formação dos direitos sociais e dos trabalhadores. A Revolução Russa de 1917 foi responsável pela ruptura com o capitalismo, apresentando uma nova configuração do Estado que estivesse à serviço e fosse controlado pelo povo.

Fonte: PCdoB na Câmara

Ocupa Brasília – A maior repressão em massa da história do país

 

Rodoviária de Brasília, 24 de maio / Foto: Francisco Proner (Mídia Ninja)

No último dia 24 de maio, Brasília viu uma das maiores manifestações organizadas por movimentos sociais, mas também aquela em que a repressão foi a mais violenta de sua história.

Na noite anterior, milhares de pessoas começaram a chegar em caravanas de ônibus vindos de todos os estados brasileiros para pedir o afastamento de Temer e protestar contra as reformas da previdência e trabalhista.

Na caminhada pacífica, que começou por volta das 10h da manhã, mais de 200 mil pessoas preencheram todo o trajeto de cerca de 5km que vai do Estádio Nacional Mané Garricha até a Esplanada dos Ministérios. Já no meio do caminho, próximo ao Conjunto Nacional, um desproporcional aparato policial armado de escudos e cassetetes tentava fazer as pessoas pararem para que uma a uma fossem revistadas. A reação da massa que descia o Eixo Monumental foi romper a barreira e seguir a caminhada. Mas ao chegar na Esplanada, se depararam com outra barreira que impedia os manifestantes de ocuparem o gramado em frente ao Congresso Nacional, algo também inédito na história da Capital Federal que tantos atos já viu ocorrerem no mesmo local.

Enquanto isso, dentro do Congresso Nacional, a UNE e outras entidades entregavam um abaixo-assinado com mais de 800 mil assinaturas, reunidas em apenas uma semana, ao Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pedindo a renúncia de Michel Temer.

Do lado de fora, por volta das 14h e à medida em que a grande marcha ia se concentrando em frente aos ministérios, a polícia iniciou os ataques aos manifestantes, com balas de borracha, bombas e gás de pimenta. A reação de um pequeno grupo foi descarregar sua indignação contra vidraças de alguns Ministérios. Motivo aliás, usado pelo governo para justificar a repressão, como se o patrimônio público fosse mais importante do que a vida das pessoas.

O descontrolado aparato que reunia soldados da PM e da Força Nacional – solicitada mais cedo por Rodrigo Maia – provocou correria, pânico e muitos feridos. Para piorar a situação, no Palácio do Planalto, o Ministro da Defesa Raul Jungmman (PPS) – que pediu demissão após a divulgação dos áudios da delação premiada da JBS e em menos de 24 horas voltou atrás – anunciava um decreto de última hora assinado por Temer autorizando a entrada das Forças Armadas para conter os manifestantes. À medida em que os caminhões do exército se deslocavam do SMU (Setor Militar Urbano) – para a Esplanda, dezenas de soldados iam se unindo aos agentes policiais e à cavalaria na brutal agressão aos inúmeros manifestantes que resistiam à repressão. Famílias inteiras, incluindo idosos e crianças corriam desesperados tentando escapar da fumaça e dos tiros. O som dos trios elétricos pedindo calma e das bombas e balas de borracha se confundiu com outro mais letal: os estampidos de armas de fogo que soldados da PM passaram a disparar aleatoriamente em direção à multidão.

Aqueles que tentaram se abrigar na Rodoviária de Brasília foram surpreendidos por uma cena ainda mais violenta, que rendeu uma das imagens mais emblemáticas da manifestação (foto acima), capturada pelo fotógrafo Francisco Proner da Mídia Ninja. A fotografia, digna de prêmio, registra o cenário de guerra provocado por um aparato sem precedentes de policiais que, como cães raivosos, partiam para cima inclusive de trabalhadores e estudantes que não participavam do protesto e estavam apenas aguardando pelo transporte na rodoviária central de Brasília.

O saldo desse dia, que começou como luta democrática e terminou com terror, foram duas pessoas atingidas nos olhos por balas de borracha, um homem com a barriga perfurada por arma de fogo, outro atingido na boca por uma pistola .40, um jovem com a mão estraçalhada depois da tentativa de lançar para longe dos companheiros uma das bombas jogadas pela Polícia Militar do DF e outras dezenas de feridos, alguns deles ainda hoje internados no Hospital de Base.

Todos os protocolos internacionais de segurança que preconizam a contenção de manifestações como essa foram esquecidos pelos policiais e militares em uma única tarde e deixaram evidentes o despreparo das forças de segurança da capital do país. O horror e as centenas de violações aos direitos humanos foram noticiados pelos principais jornais de todo o mundo, na mesma medida em que foi praticamente ignorado pela imprensa brasileira.

Mas qual o motivo de tamanha repressão contra os manifestantes que participavam do histórico #OcupaBrasília?

O Governo Michel Temer sabe que está acabado e que é apenas uma questão de dias para que dê seu último suspiro. Depois de conspirar para o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Temer e seus aliados iniciaram ao longo dos últimos meses o maior desmonte dos direitos sociais que o país já teve notícia.

A imprensa de um modo geral – emissoras de TV e jornais – que ajudaram no processo de mobilização contra o governo popular eleito em 2014, passou a vender a ideia de que as reformas seriam necessárias para “salvar” a economia do país. No entanto, inúmeros estudos apresentados por especialistas (CESIT-Unicamp, Diap, Anfip, IPEA, etc) e até mesmo as vozes de analistas estrangeiros (como o cientista político estadunidense Noam Chomski) que vêm observando o que ocorre no Brasil desde o Golpe de Estado do ano passado, denunciam a estratégia de mascarar números e calar a população por meio da intimidação e mentiras usadas para convencer o povo a aceitar calado o que vem ocorrendo.

A razão é que o Brasil vem sendo diariamente entregue aos interesses do mercado financeiro às custas do suor dos trabalhadores que vão pagar a conta pelos que foram iludidos pela propaganda da FIESP e seu pato amarelo. E a maior prova disso é que desde que vieram à tona a sucessão de escândalos envolvendo não só o presidente Michel Temer mas todos os nomes do primeiro escalão de seu governo e também do parlamento, não cessou por um segundo as negociações de bastidores. O objetivo é chegar a um consenso, um nome que agrade àqueles que desejam controlar o país, e que ocupe a cadeira de Temer por meio de eleições indiretas.

A possibilidade de reversão do impeachment por via judicial também é remota, dado o envolvimento de parte do judiciário no golpe, especialmente os Ministros do Supremo Gilmar Mendes, flagrado em conversas nada republicanas com o Senador Aécio Neves (PSDB), e o Ministro Alexandre Moraes que substituiu Teori Zavatscki depois que este morreu em um acidente aéreo até hoje não explicado. Assim, se não há condições para que o país devolva à Dilma Rousseff – sobre a qual não pesa nenhuma das acusações que hoje inundam o cenário político do país – o mandato que lhe foi conferido por mais de 54 milhões de votos, é mais do que chegada a hora das trabalhadoras e trabalhadores brasileiros se unirem para evitar que a Nação brasileira continue sendo tomada de assalto. O ideal é que fosse possível inclusive a antecipação de eleições gerais, dado que as últimas operações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal deixam claro que mais de 80% do Congresso Nacional foi eleito por meio de propinas, caixa 2, conchavos e corrupção. O poder econômico como via de obtenção de votos precisa ser varrido do sistema eleitoral brasileiro por meio de uma profunda Reforma Política. Mas nesse exato momento, é certo que a simples permanência de Michel Temer no Palácio do Planalto ou sua substituição por um nome saído deste Congresso, agora escancaradamente corrupto, é uma verdadeira provocação ao povo brasileiro.

A tragédia vista neste mês de maio em Brasília é um sinal do quanto a mobilização popular assusta aqueles que detém o poder no país. Mais do que nunca, é hora de sair às ruas e gritar: #ForaTemer e #DiretasJá!

O GOLPE DENTRO DO GOLPE

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O Brasil amanhece com a notícia de que a Polícia Federal realiza mandados de busca e apreensão em mais de 40 endereços pelo país, especialmente em Brasília e no Rio de Janeiro. Dentre os alvos da operação, o Senador Aécio Neves. Envolvido, junto com o Presidente Michel Temer em uma denúncia publicada pelo Jornal O Globo, o Senador foi visto ao final da sessão de ontem a noite saindo discretamente, logo depois de ter sido fotografado lendo as notícias que já corriam pela internet.

De fato, o furo do jornalista Lauro Jardim parece ter implodido a república brasileira nas últimas horas.

Depois do impeachment de Dilma Rousseff, a revelação de que delatores da JBS (que representa a Friboi), GRAVARAM o presidente Michel Temer em negociações de propina para comprar o silêncio de Eduardo Cunha, parece ter conseguido o feito de unificar o país dividido de um ano atrás. Até líderes de movimentos como o MBL – um dos principais mobilizadores para a derrubada de Dilma – ocuparam as redes esta noite para pedir a renúncia de Michel Temer.

A Globo (aberta) anunciou em seu plantão, pouco antes do Jornal Nacional ir ao ar, que o colunista havia publicado as revelações “ainda sem os áudios, mas com confirmação dos investigadores da Lava Jato”. No referido material, diálogos gravados pelos delatores supostamente comprovam que Temer sabia do esquema de pagamento de “mesadas” à Eduardo Cunha, preso e condenado, para que este “não falasse o que sabe”. Além disso, outros trechos indicam que o Senador Aécio Neves também estaria envolvido, tendo pedido $ 2 milhões aos empresários da JBS e ainda, aparentemente, sugerido o assassinato de um dos envolvidos “antes que ele delatasse” o esquema.

Em meio a esse cenário, uma das coisas que chamou a atenção da opinião pública foi o claro “desembarque” da Globo do governo que a própria emissora ajudou a colocar no poder. Mas alguns fatores podem estar por trás desta atitude, como o interesse numa transição de governo capitaneada pela Ministra Carmem Lúcia do STF e a posterior convocação de eleições indiretas, ou seja, decidida pelo Congresso, que podem levar ao poder algum aliado do mercado financeiro.

É bom lembrar que completado um ano de governo Temer, a economia ainda apresenta números negativos e o empresariado ( especialmente aqueles representados pela FIESP), vêm demonstrando insatisfação em relação ao tímido resultado apresentado. E dentro da linha sucessória, tanto Rodrigo Maia, presidente da Câmara, quanto Eunício Oliveira do Senado, estariam teoricamente impedidos de assumirem um “mandato tampão”, por serem investigados pela Operação Lava Jato. Um desdobramento em consequência da ação que destituiu Renan Calheiros da presidência do Senado pelo mesmo motivo.

Essa linha de raciocínio explicaria o jantar do qual a Ministra participou há alguns dias, com FHC, empresários e até um membro da Família Marinho. Carmem Lúcia pode representar ainda uma possibilidade de suspensão do calendário de 2018, com o argumento de “estabilizar o país” e concluir a Operação Lava Jato. No entanto, isso também poderia ser visto como uma tentativa de impedir a eleição do ex-presidente Lula, que vem aparecendo em primeiro lugar nas intenções de voto em todos os cenários e por institutos de pesquisa diferentes.

Figuras como o Senador Ronaldo Caiado pedindo abertamente a renúncia de Michel Temer também indicam que a aliança formada para derrubar a presidenta Dilma Rousseff, começou a se diluir assim que as revelações começaram a circular.

O Planalto soltou uma nota, cerca de uma hora depois que as notícias foram divulgadas, em que afirma que o presidente Michel Temer “não participou de nenhuma conversa” com aquele teor. Também o Senador Aécio Neves nega qualquer participação na negociação. Ambos disseram por meio desses comunicados que “confiam nas investigações e aguardam que o judiciário se pronuncie”.

Pouco antes de uma multidão tomar as ruas em frente ao Palácio do Planalto em Brasília, também na Avenida Paulista e em várias outras cidades, os Ministros do STF fizeram algo bastante incomum para os jornalistas acostumados a cobrir a Côrte. Foi solicitado que a imprensa se retirasse e em seguida, fecharam as portas do Supremo. Ali, acredita-se que o Ministro Edson Fachin tenha se reunido com seus pares, não só para avaliar o tamanho da crise, mas também pelo fato de que agora ele está sendo pressionado a revelar rapidamente o conteúdo das conversas citadas.

O Ministro Edson Fachin assumiu a relatoria da Operação Lava Jato depois que o avião que levava o Ministro Teori Zavatscki caiu e onde morreram todos os ocupantes, um acidente que ainda está sob investigação. Por sinal, o filho do Ministro, Francisco Zavatscki, chegou a publicar em seu perfil nas redes sociais uma espécie de “desabafo” em que pergunta “se o PMDB teria coragem de matar o pai dele”. Com a repercussão, o post foi apagado, mas já havia se espalhado pela internet. Francisco menciona ainda o Ministro Teori, dizendo que pouco antes de morrer, o pai estava “preocupado com o PMDB”, que segundo ele “tentava parar a Operação Lava Jato”.

Também chamou atenção da opinião pública nos minutos seguintes em que a cúpula do Governo Temer começava rapidamente a ruir com a notícia, o fato de que há poucos dias foi revelado que o Juiz Sérgio Moro, que conduz de Curitiba a 1ª instância da Operação Lava Jato, disse em despacho que negava um pedido da defesa de Eduardo Cunha porque este havia tentado “chantagear Michel Temer”. Fica a pergunta no ar: se Moro sabia da tentativa do PMDB de parar a Operação, porque tentou censurar o que Eduardo Cunha tinha a dizer? Será que foi esse o motivo que levou os irmãos da JBS à procurarem a PGR e não Sérgio Moro, para fechar o acordo de delação premiada?

Não se sabe ao certo muitas respostas e nem o que vai acontecer nas próximas horas, mas uma coisa é certa: o grito ouvido nas ruas nesta quarta-feira e a reação na internet foi unificada: #RenunciaTemer e #DiretasJá. E é a primeira vez, desde o impeachment de Fernando Collor na década de 90, que aparentemente todo o país se uniu em torno de uma ideia em comum. Não é pouca coisa.

 

Marcon elogia Papa Francisco e ação para dirimir atrito entre nações

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O deputado Marcon (PT-RS) elogiou em pronunciamento no plenário a iniciativa do Papa Francisco de visitar Cuba pela primeira vez e, logo depois, os Estados Unidos, poucas semanas após a retomada dos laços diplomáticos entre os dois países. “Foi o Papa que aproximou Cuba e Estados Unidos, dois países com posições antagônicas. Em Cuba, mais de meio milhão de pessoas estiveram presentes à missa celebrada pelo Santo Papa Francisco. Nos Estados Unidos, o papa realizou um visita histórica onde despertou grande alegria, com multidões que o seguiram para todas as partes”, afirmou.

O parlamentar lembrou o simbolismo da viagem do Papa Francisco pelos dois países. “Estados Unidos e Cuba, adversários de longa data, iniciaram uma abertura nas relações bilaterais com mediação do Papa Francisco. Em julho, abriram embaixadas nos respectivos territórios.

O Papa Francisco mostra, mais uma vez, humildade e grande ensejo em buscar dirimir atritos políticos entre as nações. Cada vez mais ele nos enche de orgulho, pois mostra o verdadeiro intuito da igreja que é o bem comum das pessoas”, enfatizou o deputado Marcon.

Gizele Benitz

Foto: Lúcio Bernardo Jr

“os estrategistas dos Estados Unidos seguramente estão de acordo com as diretrizes da política externa defendida pela candidata Marina Silva; Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães

Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ex-secretário-geral do Itamaraty no governo Lula, diz que “os estrategistas dos Estados Unidos seguramente estão de acordo com as diretrizes da política externa defendida pela candidata Marina Silva. Se ela for eleita, será a vitória de um modelo diplomático similar ao que tivemos nos anos 90”, avalia; ele ressalta que Marina pode ser o caminho, desejado pelos EUA, para se realizar o desmantelamento do Mercosul

7 DE SETEMBRO DE 2014 ÀS 18:34

Darío Pignotti, da Carta Maior

– “Os estrategistas dos Estados Unidos seguramente estão de acordo com as diretrizes da política externa defendida pela candidata Marina Silva. Se ela for eleita, será a vitória de um modelo diplomático similar ao que tivemos nos anos 90”, declarou à Carta Maior o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ex-secretário-geral do Itamaraty no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Junto do ex-chanceler Celso Amorim e do assessor Marco Aurélio Garcia, Pinheiro Guimarães integrou a troika responsável por planejar de diplomacia com sotaque nas relações Sul-Sul aplicada entre 2003 e 2010. Premissas que “tiveram continuidade a partir de 2011 durante o mandato da presidenta Dilma Rousseff, que adotou medidas muito corretas sobre o Mercosul e contra a Inteligência norte-americana no escândalo da NSA, e resistiu às pressões para a compra de aviões de guerra norte-americanos”, afirmou Pinheiro Guimarães.

No programa de governo apresentado uma semana atrás por Marina, foram formuladas propostas em alguns casos antagônicas às dos governos de Dilma e Lula, além de formular críticas enredadas ao que define como uma diplomacia “ideologizada” e “partidarizada” durante as três gestões petistas.

Embaixador, estamos diante do risco de serem restaurados princípios diplomáticos que dominaram a segunda metade dos anos 90?

Considero que a candidata Marina Silva encarne a anulação do progresso conquistado nestes 12 anos. Ela e os setores que representa buscam outro modelo de inserção internacional. Um pensamento que se traduz no propósito de enfraquecer o Mercosul com o pretexto de torná-lo aberto ao mundo.

Será o fim de qualquer aspiração de uma diplomacia independente?

Até agora, a única vez que escutei Marina falar de independência foi para mencionar a independência do Banco Central (risos).

Washington aposta em Marina ou Aécio?

Não estou em Washington para dizer o que pensam. Agora, há interesses dos Estados Unidos que foram prejudicados durante os governos de Lula e Dilma, e é claro que o candidato de que mais gostavam era o Aécio.

A Embaixada norte-americana adotou um perfil muito discreto nas eleições, mas isso não deve se confundir com o fato de estarem alheios ao que acontece. Quando o Aécio fica fora do jogo, os Estados Unidos se inclinam para a Marina, por pragmatismo e porque ela representa o oposto ao PT. Além disso, é alguém sem quadros próprios e, segundo dizem, tem bons contatos nos Estados Unidos, e que demonstrou estar aberta para desmontar o Estado, reduzir sua capacidade e autonomia internacional. Interessa aos Estados Unidos que o Mercosul sejam desmontado e que projetos da era tucana sejam retomados, não nos enganemos: nestas eleições, está em jogo a retomada do processo privatizador, parcial ou total, da Petrobras, do Banco do Brasil e do BNDES.

Como a Marina implementaria esse desmantelamento do Mercosul?

Avalio que possa começar com a eliminação da cláusula que obriga os países do Mercosul a negociar conjuntamente acordos de livre comércio com outros blocos. Este ponto, que até agora não conseguiram derrubar, é uma cláusula que vem desde o Tratado de Assunção (assinado em 1991, na formação do Mercosul).

E depois de terminada esta limitação, o que aconteceria?

Uma vez eliminada essa cláusula, o caminho estará aberto para a assinatura de acordos do Brasil com a União Europeia, sem a participação dos outros quatro integrantes do Mercosul. Mas se a cláusula continuar em pé, seria igualmente perigoso um pacto entre todo o Mercosul e a União Europeia. E essa negociação, que já se iniciou mas avança lentamente, provavelmente será acelerada durante o governo de Marina.

Quais consequências um acordo com a UE traria?

Muitas, uma delas é a redução considerável das tarifas [de importações] industriais europeias afetando nossas fábricas. Defendo faz tempo que esta aproximação, que agrada os economistas da Marina, é o passo inicial rumo ao fim do Mercosul.

Vou resumir assim: a assinatura de um acordo entre os dois blocos significará uma extraordinária vantagem para empresas europeias que poderão exportar para cá sem que cobremos taxas, enquanto não haverá grandes benefícios para os exportadores sul-americanos.

E acrescento que se este acordo acontecer, afetará outra instituição fundamental do Mercosul, que é a Tarifa Externa Comum, fixada para terceiros países. Se isto acontece, a união aduaneira é pulverizada, qualidade central do Mercosul. E uma vez que chegarmos à hipotética assinatura do pacto de livre comércio com os europeus, os Estados Unidos reaparecerão.

De que maneira?

Os meios e os grupos de interesses brasileiros que se sentirem representados pela Marina só falam de um acordo com a União Europeia por oportunismo, pela boa imagem dos europeus, que seriam maravilhosos, educados, que nos abririam as portas do primeiro mundo. Uma retórica para ocultar que o acordo será prejudicial para nós. Quem quiser saber o que nos espera com esse acordo que pergunte aos gregos e aos espanhóis como a velha Europa é tratada.

Agora tudo isso nos leva ao começo desta conversa, que são os Estados Unidos. Por quê? Porque uma vez assinado o pacto UE-Mercosul, no outro dia, Washington vai querer igualdade de condições comerciais que europeus conquistaram, exigindo de nós um acordo de livre comércio. Os Estados Unidos nunca se esqueceram do espírito da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).

MAR DEL PLATA, NOVEMBRO DE 2005

No começo da década passada, FHC sancionou Pinheiro Guimarães por ter se oposto publicamente à assinatura da ALCA, que seria enterrada durante a Cúpula das Américas, celebrada em novembro de 2005 no balneário argentino de Mar del Plata, graças a uma frente formada pelos presidentes Lula, Néstor Kirchner, Hugo Chávez e Evo Morales, apoiados por outros líderes sul-americanos diante de um atônito George Walker Bush e de seu aliado, o mexicano Vicente Fox, ex-gerente da Coca Cola com um grande bigode.

A tese da ALCA pode ser recriada com outro nome. É possível que a Marina, FHC e a inteligência neoliberal reciclem o projeto?

Tudo me leva a pensar que o projeto norte-americano de integração hemisférica comercial, de eliminação de barreiras, de sanção de um sistema de leis que privilegiam suas multinacionais etc continua em vigor. É preciso prestar atenção na Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile).

Entendo que os Estados Unidos se preparem para retomar essa proposta em caso de a Marina ganhar. Porque suas posições sobre política externa refletem as aspirações se setores empresariais, de banqueiros e grandes meios de comunicação que demonstraram certa saudade da dependência colonial.

Com Marina voltaremos ao passado anterior ao encontro de Mar del Plata?

A candidata parece estar muito aberta a essas ideias. Mas o interessante é que ela não está sozinha.

No seu entorno, se expressa esse espírito anterior à reunião de Mar del Plata. Eu me refiro ao professor André Lara Rasende, ao professor Eduardo Giannetti da Fonseca, à senhora Maria Alice Setúbal (Banco Itaú). Além disso, me parece natural que depois do primeiro turno (5 de outubro) se somem outras pessoas com pensamento similar e que hoje estão junto do candidato Aécio. Estou falando o professor Armínio Fraga, do professor Pedro Malán.

DILMA REELEITA

O senhor acredita que, apesar da subida de Dilma, a Marina será a futura presidenta?

Não, pelo contrário, acredito que, apesar de toda esta comoção, a presidenta Dilma será reeleita. Acredito que, ao longo destes dois meses, as ideias da ex-senadora vão ficar em evidência.

Neste caso, quais seriam os objetivos de sua política externa em um segundo mandato?

Em primeiro lugar, deve-se mencionar que sua política externa não teve diferenças coma de Lula, apesar de Dilma não ter o mesmo estilo de fazer política externa. Trabalho para reforçar os BRICS, impulsionou o banco dos BRICS, foi firme a favor da entrada da Venezuela no Mercosul, apesar de os Estados Unidos terem manifestado abertamente seu interesse em substituir o governo venezuelano, postura que encontra eco na grande imprensa brasileira, no FHC e nos dirigentes tucanos

No segundo mandato, a presidenta deveria ter como objetivo reduzir a vulnerabilidade externa do país, a dependência de capitais especulativos para o pagamento da dívida e tudo isto cria um círculo vicioso que aumenta as taxas de juros. É falso, é um mito que as taxas sobem para combater a inflação.

Ou seja, as alianças diplomáticas devem continuar, mas são necessárias mudanças na estratégia econômica internacional?

Sim, e está completo o comentário dizendo que em um segundo governo a presidenta Dilma terá que trabalhar para diversificar nosso comércio exterior, para reduzir nossa vulnerabilidade comercial devido ao crescimento das exportações de produtos primários cujos preços não somos nós quem decidimos. Quando digo diversificar penso em base para reforçar exportações industriais porque o Brasil corre o risco de seguir rumo a uma especialização regressiva na produção agropecuária e mineral, acompanhada de uma contração do setor industrial, aliada a uma atrofia de sua capacidade tecnológica.