Eduardo Santillán / Presidencia de la República

Batinas ao vento. O papa Francisco perde seu solidéu por alguns segundos, ontem, às 16h04 hora de Havana, enquanto descia as escadas do avião, já em Cuba, no Aeroporto José Martí, em pleno início da temporada de chuvas e furacões.

Francisco falou com o presidente Raúl Castro medindo cada palavra, com parcimônia: ele tem consciência de que esta é uma viagem histórica. É possível que essa turnê por Cuba e Estados Unidos marque o fim da Guerra Fria norte-americana contra Cuba, um país castigado por sua obstinação em ser soberano.

O chefe de Estado do Vaticano renovou suas intenções de aprofundar a aproximação entre Havana e Washington, iniciada em dezembro do ano passado, quando Raúl e Barack Obama anunciaram o reinício dos vínculos diplomáticos.

O papa pediu a Raúl e Obama que sejam capazes de dar “um exemplo de reconciliação para o mundo inteiro, um mundo que precisa de reconciliação em meio a esta Terceira Guerra Mundial”.

A referência à Terceira Guerra Mundial não constava no texto original, foi incluída pelo papa após reflexão durante o voo que saiu de Roma.

Sem dúvidas esta é a viagem mais importante de Francisco desde o começo do seu papado, iniciado no dia 13 de março de 2013 – uma semana depois da morte de Hugo Chávez, o mais vigoroso líder latino-americano surgido no Século XXI.

Por sua parte, Raúl Castro agradeceu a colaboração de Francisco para melhorar as relações com os Estados Unidos, mas foi direto ao falar do bloqueio, o assunto principal da agenda cubana.

O bloqueio “é cruel, imoral e ilegal, precisa terminar o quanto antes”, afirmou o mandatário, avisando que só haverá relações com a Casa Branca quando o território de Guantánamo, onde atualmente há uma base militar e um presídio onde se violam os direitos humanos, seja devolvido.

O líder cubano também reivindicou a autodeterminação dos povos e exigiu respeito às decisões de cada nação latino-americana, e também a imposição externa de modelos de governo. Uma referência clara à prepotência norte-americana ao querer exportar sua democracia de mercado como único sistema político global.

Raúl destacou que, desde o triunfo da Revolução, Cuba vem enfrentando uma batalha pela igualdade e a defesa dos direitos do povo. “O capitalismo aliena os cidadãos com reflexos e padrões de conduta que só servem aos interesses de seus donos”, afirmou.

Cerca de cem mil pessoas saudaram o sumo pontífice em seu passeio com o papamóvel, desde o aeroporto até a Nunciatura, segundo o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano.

A Rádio Rebelde de Havana realizou uma cobertura especial da visita de “Sua Santidade”, assim como outros dos meios importantes do país.

Em seus boletins informativos de ontem, a emissora fundada por Ernesto Che Guevara – em Sierra Maestra, em 1958 – considerou “limitadas” as medidas anunciadas na semana passada pelos Estados Unidos, para atenuar o bloqueio. Em sua seção internacional, a rádio dedicou bastante espaço à presença de Cristina Kirchner em Cuba, e também ao “alerta” da mandatária argentina sobre um “plano desestabilizador” em seu país.

Durante seu discurso de boas-vindas a Francisco, o presidente Raúl Castro também expressou sua preocupação com respeito às ofensivas contra mandatários progressistas da região.

Jorge Mario Bergoglio celebrará uma missa neste domingo, em plena Praça da Revolução da capital cubana, e depois viajará para a cidade de Holguín, na segunda-feira (21/9). Na terça, encerrará sua visita ao país em Santiago de Cuba, onde embarcará rumo aos Estados Unidos.

Duas horas antes da aterrissagem de Francisco, no centro histórico da cidade de Havana, o sol ainda brilhava e se sentia uma suave brisa – “rica”, como dizem aqui.

Havana é uma Babel de jornalistas internacionais, peregrinos vindos de toda a América Latina e dos Estados Unidos, mesclados aos turistas brancos como o papel da Bíblia, passeando de sandálias e meias pelo Malecón, nas proximidades do Monumento ao Maine, o navio norte-americano afundado em 1898, quando estava ancorado em frente à costa cubana. Um dos visitantes gringos fotografa as duas colunas que recordam aquele incidente militar, que serviu de pretexto para o assédio norte-americano contra a ilha. Outros turistas ignoram o monumento erguido a poucas quadras da embaixada estadunidense, reaberta em julho passado.

Esses turistas, menos atentos ao patrimônio arquitetônico, preferem observar umas morenas esplendidamente desinibidas, tomando sol na orla da praia.

“É bom que o papa argentino venha nos visitar”, responde uma das garotas, quando pergunto a ela sobre o tema que está na boca de todos. Consultada sobre sua religião, ela somente diz: “não sou católica, mas me dou bem com os católicos”, e não tocou mais no assunto.

Bergoglio foi recebido pelos cubanos com o afeto e a hospitalidade típica da ilha, mas sem o mesmo fervor que certamente teria se estivesse no México ou em outros países latino-americanos, mais fanaticamente católicos.

Na sexta-feira, na catedral onde o sumo pontífice estará hoje, dezenas de jovens oraram e cantaram até quase meia-noite – eles sim, com um entusiasmo místico.

Os cubanos católicos representam menos de 30 % de uma população que é muito religiosa, mas que, em sua maioria, cultiva as divindades trazidas pelos escravos africanos, “como acontece no Brasil, no Estado da Bahia”, comparou ontem o teólogo dominicano Frei Betto, que completou mudando de assunto: “Francisco merece receber o Prêmio Nobel da Paz. por tudo o que já fez (para reaproximar os governos de Cuba e dos Estados Unidos)”.

“O fato de o papa ir a Cuba antes de passar pelos Estados Unidos é um reconhecimento à soberania deste país. Alguém se perguntou por que ele decidiu passar por Holguín? Porque é a cidade mais próxima à base de Guantánamo”, comentou o intelectual brasileiro.

Autor do livro “Fidel e a Religião”, publicado em 1985, Frei Betto recordou alguns momentos das relações entre o líder revolucionário e a Igreja.

Lembrou que, no começo dos Anos 60, o recém iniciado governo dos “barbudos” enfrentou a sedição católica, alinhada com a contrarrevolução.

Os templos eram redutos da conspiração, de grupos extremistas, entre os quais chegou a haver “um padre louco que levou 14 mil crianças” aos Estados Unidos, alegando que o comunismo os distanciaria de seus pais.

Finalmente, segundo Frei Betto, Fidel estabeleceu um diálogo frutífero com o catolicismo, especialmente com a Teologia da Libertação, e nunca rompeu esses laços criados com o Vaticano.

Antes de terminar esta crônica, ouço o porta-voz Lombardi mencionar que Cuba e a Santa Sé cumpriram 80 anos de relações ininterrompidas, e comunicou que o papa e Fidel poderiam se reunir ainda neste domingo.

Ramón Labañino Salazar é um dos cinco “heróis nacionais” de Cuba, preso durante 17 anos na Flórida, até que recuperou a liberdade, em dezembro do ano passado, quando Obama e Raúl Castro restabeleceram os vínculos rompidos havia mais de meio século.

Símbolo desse descongelamento, Labañino Salazar declarou que “todos os cubanos esperamos essa conversa entre Fidel e o papa, este é o terceiro papa que o comandante vai receber, depois de João Paulo II (em 98) e Bento XVI (há 3 anos)”.

“Será um momento histórico singular, de futuro, de amor e de otimismo. Porque demonstra que os tempos estão sempre a favor da revolução. Fidel sempre esteve certo, não é só o líder da revolução cubana, mas sim um líder para o mundo. E o papa também simboliza esses valores universais. É a unidade de dois homens que se aliaram na luta em favor dos pobres” respondeu Labañino Salazar, em conversa com a Carta Maior.

Tradução: Victor Farinelli