Cuba e Estados Unidos: tudo muda, pouco se altera.

Numa cerimônia encabeçada pelo secretário de Estado John Kerry e o chanceler cubano Bruno Rodríguez, finalizou-se um período de mais de meio século, caracterizado pelo distanciamento e a confrontação entre as duas nações, próximas geograficamente mas muito distantes política e ideologicamente.

Começou o descongelamento, uma situação inusitada há poucos meses atrás, pela qual (quase) todos os países latino-americanos e caribenhos ansiavam. Foi um triunfo da soberania e da admirável dignidade do povo e do governo cubano, e um reconhecimento da administração estadunidense de Barack Obama da necessidade de corrigir muitos dos aspectos mais nefastos e indesejáveis da política exterior de Washington.

O restabelecimento das relações diplomáticas foi produto de vários meses de negociações secretas entre os governos de Raúl Castro e Obama – com a participação secundária do papa Francisco, o governo suíço (que representou os interesses estadunidenses em Cuba durante cinco décadas), algumas figuras latino-americanas e dois personagens “secundários”, mas de inegável importância para que se chegara a esse resultado (in)esperado: Josefina Vidal, diretora-geral da chancelaria cubana para assuntos com os EUA, e Roberta Jacobson, subsecretária de Estado dos EUA.

Ficara para trás, longe, até o quase esquecimento, os “vermes anticastristas” e seu poderoso lobby de Miami, agora recluídos em suas opiniões na imprensa hegemônica, em especial os meios gráficos espanhóis, alguns dos EUA e a sempre fiel Europa ocidental. Ficaram para trás, do mesmo jeito, os que previam, durante tantas décadas, que a reaproximação aconteceria após a derrubada violenta da Revolução Cubana com a implantação do modelo capitalista neoliberal, e também os que pregavam a guerra civil interminável para buscar esse fim. Já se escreveram várias novelas a respeito. Enquanto isso, e depois de uns 600 atentados contra sua vida – made in USA – Fidel Castro comemorava seus primeiros 89 anos, na véspera da reabertura da embaixada ianque em Havana.

Alguns ressaltam hoje a teimosia do Ocidente e seus aliados, que ignoram a solidez e a estabilidade política do regime cubano, falta de critério que impediu que Washington, Bruxelas e a Organização dos Estados Americanos compreendessem que os processos políticos cubanos não dependem da continuidade do status quo que durou mais de meio século, senão que obedecem a dinâmicas internas determinadas de maneira soberana.

Na sexta-feira (14/8), foi dado o pontapé inicial de outro jogo: uma relação diplomática baseada no respeito e no entendimento sobre as similitudes e, sobretudo, as diferenças que prevalecem entre ambos os países. E todo o mundo espera que assim seja, apesar de a administração de Obama estar por terminar e do fato de que alguns líderes republicanos já avisaram que pretendem revisar as medidas tomadas neste âmbito.

O que pouco se altera

O restabelecimento das relações diplomáticas não termina com meio século de injustiça, de agressividade contínua, iniciadas com a invasão da Praia Girón (Baía dos Porcos, que significou uma recordada derrota dos mercenários e das tropas estadunidenses), de sanções ilegais contra Cuba, enquanto o mundo inteiro recebia abraços de solidariedade internacionalista desde Havana. O mais importante: o bloqueio econômico e comercial continua vigente.

Nos próximos 20 dias, Obama pode demonstrar que suas intenções são sérias. Há quase um ano, o presidente estadunidense prorrogou por 365 dias a aplicação da Lei de Comércio com o Inimigo (de 1917) contra Cuba, e agora está em tempo de anular a medida que vem se repetindo há décadas. Cuba é o único país da lista: até mesmo a Coreia do Norte já saiu dela, e também a China e o Vietnã.

Existe, porém, uma bateria de leis que o bloqueio econômico sustenta e que os Estados Unidos mantém contra Cuba desde outubro de 1960, que prevalecem apesar do pedido expresso para que sejam anuladas, formulado pelo próprio Obama, e cuja derrogação passa fundamentalmente pelo Congresso estadunidense, onde a oposição republicana ultramontana é majoritária. São elas: a Lei de Assistência Externa (1961), a Lei Para a Administração de Exportações (1979), a Lei de Torricelli (1992) e a Lei de Helms-Burton (1996).

Contudo, o relaxamento nas restrições para viajar a Cuba já começou, e chegam ao governo de Obama pressões para que as tratativas avancem por parte das grandes empresas estadunidenses e multinacionais, interessadas em fazer negócios em todos os setores, onde até agora era totalmente proibido se aproximar.

O 14 de agosto foi um dia de celebração para todos aqueles que acreditamos na soberania e na autodeterminação dos povos, e que aprendemos a rechaçar, pelo bem ou pelo mal, até mesmo pelas piores, a prepotência imperialista e colonialista.

Tradução: Victor Farinelli

FONTES:

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Cuba-e-Estados-Unidos-tudo-muda-pouco-se-altera/4/34256

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