54 ANOS DEPOIS – Bandeira dos EUA e de Cuba: orgulho e vergonha

Por Emir Sader

cuba

 

Quando voltou a Washington o que havia restado do bando de 1.500 mercenários que os EUA tinham mandado para tentar invadir Cuba, John Kennedy recebeu uma bandeira que o grupo levou na sua aventura. Kennedy a guardou e lhes prometeu que lhes devolveria a bandeira em Havana, em uma “Cuba democrática”.

A aventura da invasão de Praia Giron tinha sido recebida por Kennedy do seu antecessor, Dwght D. Eisenhower. Foi um projeto paralelo à ruptura de relações com Cuba, depois que outras tentativas de afogar a ilha tinham fracassado.

Os EUA tinham levado a sério o lema das elites cubanas: “Sem cota, não ha país”. Quando Cuba apelou à URSS como alternativa à suspensão de compra da safra cubana, ficou a alternativa de ruptura de relações, acreditando que seria o golpe final no novo regime. O bloqueio econômico começava nesse momento.

Os funcionários norte-americanos se retiraram do imenso edifício no Malecon havaneiro, de arquitetura bem ao estilo deles, o edifício mais alto da cidade, onde desde o último andar, segunda a lenda, era possível ver Miami. Eu estive, muito anos depois, no edifício, quando abrigava a delegação dos EUA para relações informais com Cuba, em reunião com o mais progressista e mais importante diplomata norte-americano em Cuba, Wayne Smith.

Entrar ali era como entrar nos EUA, com todos os mecanismos de controle de um aeroporto, assim como com o mesmo tipo de pessoal. Wayne me desmentiu que se podia ver Miami do último andar. Mas é estranha a sensação de se estar dentro de um bunker em plena Malecon havaneira. Na saída, nos aguarda a famosa frase de Fidel: “Senhores imperialistas, arrogantes e prepotentes: Não lhes temos absolutamente nenhum medo”, a confirmar-nos que do lado de fora nos espera sempre a acolhedora Havana.

Nesse edifício voltará a estar a bandeira norte-americana no próximo dia 20. Wayne se lembra ainda quando, em abril de 1961, saiu com o último pessoal da embaixada, com enorme tristeza, sem saber quando voltaria a Cuba. Voltou, como representante de negócios, durante a presidência de Jimmy Carter, quando pude encontrar-me com ele.

Em contrapartida, no mesmo dia 10 de julho, no velho casarão de Washington, que havia sido embaixada cubana na capital dos EUA desde os tempos de Batista, antes da vitória da Revolução, será hasteada novamente a bandeira de Cuba. Eu pude estar ali em 2013, em uma recepção nesse casarão, que se parece com os velhos casarões da elite cubana, na 5ª Avenida, em Havana.

Obama disse que a bandeira norte-americana será hasteada “com orgulho” em Cuba. Se tivesse sido entregue aos mercenários que Kennedy tinha prometido entregar, poderia ser com orgulho. Mas a bandeira dos EUA volta a estar hasteada em uma Cuba revolucionária, nove presidentes depois, 54 anos depois de ela ter sido baixada da sacada da embaixada.

Cinquenta e quatro anos depois de iniciado o bloqueio econômico, fracassado, conforme as próprias confissões de Obama, no seu discurso de retomada das relações diplomáticas com Cuba. É, portanto, com vergonha, derrotados e não com orgulho, que voltam a Cuba. A bandeira cubana, por sua vez, volta vitoriosa a Washington. Bandeira – um rugi, cinco franjas e uma estrela – de um país que não se abateu diante do bloqueio de mais de meio século, da tentativa de invasão de  Praia Giron, da crise dos foguetes de 1962, de tantas tentativas de sabotagem e de assassinato de Fidel.

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