Derrotas dos EUA marcam nova Cúpula das Américas

Reunião de líderes terá Cuba, repúdio a sanções à Venezuela e celebração de negociação de paz com Farc
Com um retrato do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez e uma bandeira de Cuba, manifestante participa de ato na Cidade do Panamá: a Cúpula das Américas será quente.
Com um retrato do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez e uma bandeira de Cuba, manifestante participa de ato na Cidade do Panamá: a Cúpula das Américas será quente.

por André Barrocal

 

Os líderes de todos os 35 países dos continentes americanos vão se reunir pela primeira vez em uma Cúpula das Américas desde a criação deste tipo de encontro, em 1994. A reunião desta sexta-feira 10 e sábado 11 no Panamá terá a inédita presença de Cuba, uma exigência feita aos Estados Unidos na edição anterior, em 2012 na Colômbia. Se não fosse atendida, certos países não participariam mais. A cobrança deu certo. Por esta razão – mas não só por ela -, esta VII Cúpula tem tudo para ficar marcada como símbolo da derrota de posições históricas da diplomacia dos EUA para a região.

A tentativa de excluir Cuba do cenário internacional tornou-se um traço da política externa norte-americana desde o início da revolução comandada por Fidel Castro. A Casa Branca cortou relações com a ilha por décadas – e estimulou aliados a fazerem o mesmo – e só as retomou em dezembro. Por isso, um dos momentos mais aguardados no Panamá será o aperto de mãos entre Raul Castro e Barack Obama, instante que certamente terminará em imagens destinadas a correr o mundo e a entrar para a história.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que relaxa com Cuba, a Casa Branca endurece com a Venezuela, país que há uma década vive em estado revolucionário. No mês passado, Obama baixou um decreto a declarar a Venezuela uma “ameaça extraordinária à segurança dos EUA” e a impor sanções ao país. Autoridades venezuelanas tiveram congelados seus bens mantidos nos EUA e não serão autorizadas a entrar no país, por exemplo.

A adoção unilateral de sanções é outro exemplo de derrota que a Cúpula no Panamá reserva aos norte-americanos. Alguns líderes da região estão prontos para condenar as sanções, como feito há algumas semanas pelos 12 membros da União Sul-Americana de Naçõees (Unasul). Inclusive a brasileira Dilma Rousseff, como conta um auxiliar da presidenta. Na quarta-feira 8, Dilma falou por telefone sobre a Cúpula com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e mais uma vez mostrou a disposição do Brasil para ajudar nas conversas entre governo e oposição.

O repúdio venezuelano às sanções da Casa Branca é o principal responsável pelo provável desfecho da Cúpula sem uma declaração final assinada pelos mandatários. Neste tipo de encontro, os documentos costumam ser assinados apenas em caso de consenso. Basta a discordância de um país, para que nada seja escrito. A Cúpula anterior, de 2012, terminou assim, um gesto contrário à exclusão de Cuba.

A Colômbia é outro símbolo da derrota de uma posição histórica dos EUA a ser visto no Panamá. Quatro meses depois da última Cúpula, o governo colombiano abriu oficialmente negociações de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Por décadas, a Casa Branca tratou as Farc como terroristas e sempre as incluiu em sua política de “guerra às drogas”. A eleição presidencial colombiana do ano passado funcionou com uma espécie de plebiscito sobre as negociações. Santos foi desafiado por um candidato apoiado pelo antecessor e antigo aliado Álvaro Uribe, um linha-dura que governou o país em linha com os EUA. Santos venceu por apertados 50% a 45%.

Havia expectativa de que ele aproveitasse a Cúpula no Panamá para anunciar a abertura de negociações de paz similares com o Exército de Libertação Nacional (ELN), uma guerrilha de esquerda como as Farcs. Mas, às vésperas do encontro, parecia que isso não aconteceria. Entre os encontros bilaterais que Dilma terá com presidentes durante a reunião no Panamá, Santos é um deles, e um dos temas da conversa deverá ser o andamento das negociações com as Farcs.

A presidenta também deverá ter por lá um momento a sós com Obama, no qual os dois devem bater o martelo sobre a data da visita oficial que a brasileira fará a Washington este ano. É provável que a viagem ocorra entre o fim de junho e o começo de julho.

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