Fernando Morais: ‘Salvo para Raúl, Obama e o Papa, foi surpresa para todo mundo’

Nesta entrevista, escritor fala das consequências do reatamento entre os governos cubano e norte-americano.

O DIA | FRANCISCO ALVES FILHO

Rio – A aproximação entre Cuba e Estados Unidos deixa sem pauta aqueles que reclamam das relações próximas que o Brasil mantém com o regime dos irmãos Castro. A opinião é do escritor Fernando Morais, premiadíssimo autor de vários best-sellers. Conhecedor de Cuba desde a década de 1970, ele acredita que o gesto de Barack Obama e Raúl Castro marca o fim da Guerra Fria. Seu primeiro livro de reportagem tinha a ver com Cuba (‘A Ilha’, de 1976), e também o mais recente. Neste (‘Os Últimos Soldados da Guerra Fria’, de 2011), Morais conta a história dos cubanos que os Estados Unidos mantinham presos por espionagem e agora foram libertados. “Não tinha mais esperança”, diz. Nesta entrevista, ele fala das consequências do reatamento entre os governos cubano e norte-americano.

Fernando Morais

Foto:  Divulgação

O DIA: Você esperava por esse reatamento?

FERNANDO: Foi surpresa. Quando soube que houve a troca de presos e que Obama e Raúl fariam um pronunciamento importante, achei que fossem anunciar o fechamento da prisão de Guantánamo. E aí eles aparecem com essa notícia. Tenho impressão que, salvo para Raúl, Obama e o Papa, foi surpresa para todo mundo. O Brasil é um grande parceiro de Cuba, mas a informação é que o Itamaraty só soube meia hora antes.

Essa reaproximação marca o fim da Guerra Fria?

A última manifestação de Guerra Fria era entre EUA e Cuba. Pode-se dizer que acabou. Mesmo as duas Coreias, em suas relações difíceis, têm uma guerra quente. Constantemente há conflito com canhões na fronteira. No Oriente Médio também.Mas ainda há algo importante para resolver, que é o bloqueio.

Com maioria republicana no Congresso, Obama terá dificuldades para derrubar o bloqueio, não?

É muito difícil. É um Congresso extremamente conservador. Leio em geral dois ou três jornais da Flórida e a hoje chamada comunidade cubana está babando de ódio. Senadores e deputados estão convocando atos, mostrando que o caminho vai ser pedregoso. Mas é preciso considerar que a velha guarda da comunidade nos EUA está muito velhinha e as gerações que vieram depois não estão interessadas nisso, querem fazer negócio.

Esse processo de reaproximação foi difícil?

Parece que tudo começou um ano atrás em Johanesburgo, no enterro do Mandela, quando Obama e Raúl se cumprimentaram e trocaram dez segundos de conversa. Depois, o Papa entrou no circuito, não sei se por iniciativa própria ou movido por alguém. Obama esteve em visita ao Vaticano e aí o processo começou a andar. Pessoas dos dois lados começaram a se encontrar secretamente.

Como conseguiram manter este segredo?

Se as reuniões acontecessem em Cuba ou nos EUA, chamariam a atenção e seriam ilegais, seriam um crime. Por causa do bloqueio, funcionários de um desses países não podem ir para o outro sem informar. Então, usaram o Canadá. Por isso, o agradecimento dos dois, de Obama e Raúl, ao governo canadense. Não terá sido a primeira vez.

O Brasil, que mantém excelente relação com Cuba e constrói em conjunto o Porto de Mariel, vai tirar vantagens da reaproximação?

Mariel é o porto que tem em torno a chamada zona especial de desenvolvimento, onde só se instalarão indústrias e empresas de serviço estrangeiras, tudo com legislação especial. Além disso, Mariel vai ter o terceiro maior porto em capacidade de receber containers da América Latina. Quando cair o bloqueio, estaremos a 130 quilômetros do maior mercado consumidor do planeta. Diz o caipira que quem acorda mais cedo bebe água mais limpa. Na hora do aperto, foi o Brasil que estendeu a mão. Hoje tem 300 empresas brasileiras, dos mais diferentes tamanhos, operando em Cuba. Isso deve duplicar em um ano. É um excelente negócio e a posição do Brasil é privilegiada.

Raúl Castro, que sempre atuou à sombra de Fidel, tomou uma decisão que poucos esperavam dele. Como você o define?

Ele é mais retraído. Nesse sentido é o oposto de Fidel. Nunca deu uma entrevista. O curioso é que todos achavam que Fidel era o liberal da revolução e Raúl era o linha dura, stalinista. Se você observar, desde que Raúl assumiu, há oito anos, implantou mudanças profundas na sociedade cubana, na área da economia. Ele corrigiu erros que foram cometidos no começo da revolução, quando houve um radicalismo só comparável no século 20 à Revolução Russa.

Que erros foram esses?

Eles estatizaram tudo. Não havia mais meio de produção que não fosse propriedade do estado. Táxi era do Estado, manicure era do Estado, se você cortasse o cabelo em Cuba não pagava para o barbeiro, pagava para o Estado. Antes da revolução havia uma empresa muito popular que era El Rey de la Papa Frita (O Rei da Batata Frita), formada por milhares de carrinhos com bujão de gás e fogãozinho para fritar uma batata especial. O Estado privatizou o Rey de la Papa Frita. E acabou. Se você ler a obra de Marx não tem uma linha dizendo que o Rey de la Papa Frita deva ser estatizado. Então, hoje, com as decisões de Raúl, Cuba tem mais de meio milhão de adultos trabalhando em iniciativa privada, número expressivo pra um país que tem 11 milhões de habitantes.

Seu último livro falava dos cinco cubanos presos nos Estados Unidos como espiões. Eles foram libertados depois de 16 anos. Você esperava por isso?

Eu tinha um pouco de ceticismo porque o lobby anticuba é o segundo mais poderoso nos Estados Unidos. O primeiro é o lobby israelense. Eles arrecadam dezenas de milhões de dólares nas campanhas eleitorais e distribuem indistintamente para gente do partido democrata ou republicano, desde que se comprometa com a derrubada do governo de Cuba. Acho que, em algum momento, Obama, lá com o travesseiro, deve ter pensado o seguinte: “Eu ganhei um Premio Nobel já tem seis anos e não fiz jus a ele. Vou desengavetar esse diploma”.

Que mudanças esse reatamento vai trazer a Cuba?

Muda economicamente. Segundo a Organização Mundial do Turismo, quando acabasse a proibição de americanos viajarem a Cuba, o número de turistas, que hoje é de 3 milhões, subiria para 9 milhões. Isso significaria um incremento de 15 bilhões de dólares anuais na economia cubana, 25% do PIB do país. De Miami a Havana são 20 minuto de voo. Então, americano vai passar um fim de semana lá. Vai ser uma espécie de Angra dos Reis dos cariocas ou Guarujá dos paulistas. Isso é bom, areja a sociedade.

A reaproximação de Cuba e EUA deixou mal aqueles que criticam o Brasil por suas boas relações com o governo cubano?

Agora vão ficar sem discurso, já que quem tomou essa decisão foi o presidente dos EUA. O pior burro é o que não quer pensar. Eles dizem que Brasil deu dinheiro para Cuba para construir Mariel, mas, dos 800 milhões de dólares que o Brasil emprestou para Cuba, 450 milhões de dólares foram gastos no Brasil, em caminhões, tratores e outros itens comprados aqui. Tudo aquilo que Cuba não fabricasse, o Brasil forneceria. Além disso tem a vantagem célebre entre os homens de negócios: pobre paga dívida, os ricos é que dão calote. Cuba tem sido absolutamente pontual na amortização. A direita no Brasil chama o bloqueio de embargo, pra dar uma maneirada. O próprio Obama, no seu discurso, repetiu três vezes o termo “bloqueio econômico”. Ele também elogiou Cuba por ter mandado médicos para Serra Leo e Burkina Faso. Enquanto isso, as pessoas ficam aqui cacarejando.

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