Cristina Kirchner intervém no BAnco Central e rebaixa o dólar em 21%

(De Buenos Aires, por FC Leite Filho)

– Cristina está “flaquita”, como dizem os argentinos. Nestes últimos meses, baixou ao hospital três vezes, por problemas vários de saúde, nenhum grave mas todos relativamente preocupantes. Mas a mulher é uma fera e, ainda da Clínica Otamendi, de onde teve alta no domingo, depois de passar uma semana internada por causa de uma bacteremia, ela ordenou um arrastão contra os doleiros graúdos, ou seja, grandes bancos, financeiras e agências de câmbio, que fez a verdinha baixar 21% diante do peso.

No que poderá se tornar um bom exemplo para sua colega brasileira, Dilma Rousseff, também assediada desde a campanha pelas manobras desestabilizadoras da Bolsa brasileira, a operação atingiu seu ápice na terça-feira, 11 de novembro.

Federalda AFIP (Receita), munidos de ordem judicial, invadiram 71 sedes de bancos, casas de câmbio e financeiras na capital federal, província de Buenos Aires, Mendoza e Córdoba, com o fim de averiguar denúncias de lavagem de dinheiro e “evasão impositiva” de 120 milhões de pesos.

Segundo o vice-diretor Nacional de Grandes Contribuintes, Fabián de Risio, a manobra dessas entidades infratoras, “consistia em investimentos através de títulos públicos por parte de empresas que não podem justificar os fundos nem tampouco os têm”. Ele ainda explicou que a operação da AFIP (Administración Federal de Ingresos Públicos) começou “com ações de controle e cruzamento dos sistemas. Tais ações detectaram quatro empresas que operaram com títulos de 120 milhões de pesos, através de sociedades da Bolsa, mostrando inconsistências fiscais”.

A manobra fazia parte de um plano dos altos doleiros associados às grandes financeiras, patrocinadoras dos meios hegemônicos de comunicação, em forçar uma maxidesvalorização, o que fez que o dólar aumentasse 15,95%, no paralelo (anteontem, foi rebaixado para
12,65).
Os governos nacionais anteriores aos Kirchner costumavam dobrar-se a estas pressões e efetuar maxidesvalorizações, provocando enormes rombos na economia.
A saída clássica era recorrer a vultosos empréstimos a bancos internacionais, na base de draconianas medidas fiscais, que sempre implicavam sacrifícios para os trabalhadores, aposentados e assalariados em geral.
Era uma velha manobra destinada à repatriação de divisas, com a qual colaborava o Banco Central, mesmo sob a presidência do atual governo, caracterizado pela defesa dos interesses nacionais.

Presidenta denuncia o seu BC – Cristina decidiu enfrentar o bicho-papão e denunciou que, desde 1982, se acumulavam expedientes no BC contendo investigações sobre irregularidades e manobras fraudulentas em bancos e financeiras.
A presidenta recordou que aquelas investigações haviam realizado operações em “grutas” (cuevas), onde havia pessoal de segurança prestando serviços e também executivos, os quais,a partir do Banco Central, diziam que lhes tinham avisado dos processos.
Ao mesmo tempo, o novo presidente do BC, Alexandre VAnoli, o chefe de gabinete Jorge Capitanich e o ministro da Ec onomia Axel Kicillof se juntaram com os principais agroexportadores da soja e outras oleaginosas. Tais autoridades lhes solicitaram que acelerassem a liquidação das vendas, retidas nos últimos meses justamente à espera da dita maxidesvalorização.

O presidente do Banco Central, Juan Carlos Fábrega, sentiu-se pressionado e renunciou, em primeiro de outubro, assumindo em seu lugar o presidente da Comissão Nacional de Valores, Alexandre Vanoli, mais identificado com o modelo nacional de desenvolvimento autônomo, liderado pelo atual governo desde 2003.
A reação dos doleiros não se fez esperar e no último dia 24 de setembro o dólar disparou em 15,95%. Não obstante, uma ação conjunta da AFIP, BC e outros organismos de controle governamental, resultou na vistoria in loco daquelas 71 entidades financeiras, incluindo o Banco Mariva, que sofreu intervenção, por comprovada ação fraudulenta..
Enquanto isso, a presidenta se internava na Clínica Ofamenti, no dia dois de novembro, com fortes dores no estômago, a partir das quais se constatou uma inflamação no cólon intestinal, produzido por uma bactéria que vazou para o sangue. Cristina ficaria uma semana na Clínica, da qual recebeu alta, no último domingo, nove de novembro, com recomendações de guardar repouso por dez dias. Já na segunda, dia dez, no entanto, a presidenta determinava o início da operação caça doleiros graúdos, na terça três. Imagine-se se o Banco Central da Argentina fosse independente, como quer a oposição que liderou a chapa contra Dilma no Brasil.

Cordialmente, FC Leite Filho
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