“Não existe mais espaço para grandes reportagens”, diz Fernando Morais

Ana Cristina Campos – Repórter da Agência Brasil Edição: Carolina Pimentel

O escritor Fernando Morais é o entrevistado do programa Espaço Público da TV BrasilValter Campananto/Agência Brasil

Com 68 anos de idade e 53 de carreira, o jornalista e escritor Fernando Morais conta que está pensando em parar de escrever obras de fôlego. Mas, no momento, ainda não. Ele está escrevendo um livro sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O livro do Lula não é uma biografia, é uma fatia da vida dele que vai da cadeia em 1980 até o fim da Presidência. Depois não quero mais. É um trabalho monumental fazer entrevistas”.

Nessa terça-feira (24), Morais participou do programa Espaço Público, da TV Brasil, e falou sobre algumas das obras que escreveu. Com dez livros publicados, o mineiro é o autor das biografias Chatô, o Rei do Brasil, sobre Assis Chateaubriand, que foi dono de um império da comunicação no Brasil; Olga, que conta a vida da guerrilheira comunista Olga Benário, companheira de Luís Carlos Prestes; e O Mago, sobre o escritor Paulo Coelho.

Para o seu primeiro livro, A Ilha, de 1976, sobre Cuba após a revolução, Morais lembra que passou três meses no país em 1975 para fazer uma reportagem. “Cuba é um fenômeno. É provável que nossos tataranetos olhem para Cuba, como um país paupérrimo, que conseguiu acabar com a fome, com o analfabetismo, com essas tragédias que ainda temos num tremendo país como é o Brasil. Os inimigos da Revolução Cubana diziam que essas conquistas se deviam à União Soviética. A União Soviética acaba em 1990 e Cuba continuou mantendo padrões de educação e saúde reconhecidos pelo mundo porque conseguiram fazer uma revolução voltada para os interesses dos pobres. O bloqueio [econômico] continua sendo uma brutalidade contra Cuba”.

Em sua última obra, de 2011, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, o escritor mostra a história de espiões cubanos nos Estados Unidos, no início da década de 1990, infiltrados em grupos anticastristas sediados na Flórida. O motivo dessa operação era colher informações para evitar ataques terroristas ao território cubano. Eles foram condenados e estão presos nos Estados Unidos.

“Esse julgamento é uma brutalidade jurídica. É um processo que tem repúdio do mundo inteiro. Há entre os manifestantes [contra a prisão] dezenas de prefeitos e vereadores de várias partes dos Estados Unidos, inclusive do Partido Republicano, apoiando a libertação dos cubanos porque sabem que é uma indecência jurídica”.

Para Morais, não existe mais espaço para grandes reportagens na imprensa brasileira. “Os editores dizem que as pessoas querem coisas curtinhas, uma página, e acabou. As pessoas querem saber, os jornais é que não querem investir nisso.”

Ele conta que cogita a ideia de fazer um pequeno livro, após terminar a obra sobre Lula, sobre o programa espacial brasileiro. “É um negócio fascinante, uma aventura impressionante. A importância que isso tem para a história do Brasil. Vão lançar um segundo satélite com a China em dezembro”.

Morais disse ainda que os grandes veículos de mídia deveriam “assumir as posições” no período eleitoral. “É uma mídia envergonhada.” Ele também fez críticas à classe política. “O Parlamento acabou se transformando muito em um instrumento de construção de carreiras pessoais não exatamente políticas, mas carreiras empresariais. Tem um universo de gente hoje no Congresso Nacional que usa o mandato para sustentar negócios, que usa a política para fazer negócios.”

O escritor foi entrevistado pelos apresentadores Florestan Fernandes Jr., Paulo Moreira Leite e a jornalista Tereza Cruvinel. O programa pode ser visto na internet.

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