“Visão” de sigla levou Marina a amenizar doença, diz biógrafa de candidata

 

marina

Casa em que Marina Silva morou em Rio Branco, hoje com propaganda de candidato petista a deputado estadual na porta

por Luiz Carlos Azenha

Reconheço meu fascínio pessoal pela história de Marina Silva, uma verdadeira sobrevivente, saúde sempre muito frágil, alfabetizada aos 16 anos de idade pelo Mobral, estudante e professora de História, que quase se tornou freira antes de entrar no Partido Revolucionário Comunista — abrigando-se no PT. Militante fundadora da CUT no Acre, tornou-se a mais jovem senadora do Brasil. Depois, migrou para o PV e agora está no PSB. Do catolicismo flertou com o ateísmo para, mais tarde, tornar-se evangélica. Parece, mesmo, predestinada, da mesma forma que Lula.

Já disse que, dadas outras condições políticas, poderia até votar nela — por exemplo, contra Aécio Neves. Porém, isso se tornou uma impossibilidade diante do programa neoliberal do PSB, que entre outras medidas prevê  a  autonomia do Banco Central. Em minha modesta opinião, isso representa a importação do arrocho e da perda de direitos vivida hoje pelos europeus e uma entrega de soberania mais profunda inclusive que o leilão de Libra patrocinado pela petista Dilma Rousseff.

Fernando Henrique Cardoso tinha uma sólida base de industriais paulistas quando governou, Lula se propôs a fazer a conciliação de classes e se rendeu ao agronegócio — embora com concessões à agricultura familiar –, mas tinha sólida base no operariado paulista e em movimentos sociais quando se elegeu, além do apoio da igreja católica.

O apoio de Marina se concentra em ONGs ambientalistas — e não são todas, já que ela foi abandonada por muitos ‘verdes’ –  e numa Rede que não conseguiu se organizar como partido. Como a própria indústria brasileira tem tido participação proporcional decrescente no PIB, presumo que ela e o PSB tenham decidido fazer do mercado financeiro sua base principal de sustentação.

Há toda uma filosofia por trás do discurso de Marina, que não pode ser analisado superficialmente, mas com certeza inclui como um de seus paradigmas a busca do consenso como forma de superar a luta de classes. Isso reflete exatamente a trajetória de Marina, tanto política quanto religiosa.  A candidata obviamente abandonou o marxismo do PRC e parece abraçar uma espécie de “comunitarismo” muito parecido com aquele que Barack Obama abraçava antes de se tornar presidente dos Estados Unidos.

Questões religiosas são de foro íntimo, mas Marina não teve dificuldade ao discutir sua conversão mais recente com a biógrafa Marília de Camargo Cesar. Com a saúde frágil, depois de retornar dos Estados Unidos indisposta a fazer tratamento com uma droga ainda experimental, ela teve contato com um pastor que fez a ela uma espécie de “revelação telefônica”.

André Salles, o pastor, passou a descrever “as características físicas de um homem que ele percebia como uma ameaça para a senadora. Ao escutar as feições descritas, ela reconheceu a pessoa em questão”. Pelo menos publicamente, Marina nunca identificou esta pessoa.

“Aquilo para mim foi impactante. E a partir daí passei a nutrir um sentimento de gratidão a Deus por ter usado aquele homem [o desafeto] para que eu me aproximasse de Deus”, conta Marina. Seria Lula, da qual foi ministra mas com o qual ficou ressentida pela forma como deixou o governo do PT?

Depois da revelação veio o que Marina chama de “visão”. Durante um culto, surgiu na mente da agora candidata do Partido Socialista uma sigla: DMSA.

Conta Marina:

“Foi como um relâmpago que apareceu na minha mente. DMSA.  Mas não entendi o que significava. Nunca tinha tido uma experiência como aquela. Quando cheguei em casa, eu me lembrei: é o remédio!”.

DMSA era a droga que médicos norte-americanos, durante uma visita da senadora aos Estados Unidos, haviam recomendado para o tratamento da contaminação por metais pesados, da qual Marina foi vítima por conta de uma overdose de medicamentos contra a leishmaniose. Como se tratava de uma droga experimental, Marina de início rejeitou a oferta. Temia piorar ainda mais o estado do fígado já baleado.

Porém, diante da “visão”, Marina tratou imediatamente de providenciar a importação do DMSA para o Brasil. Depois de tomar o remédio, numa série de injeções em Brasília, diz ter melhorado consideravelmente da fraqueza e dos desmaios, embora ainda sofra de uma série de alergias e enfrente restrições alimentares.

Neste contexto, fica muito mais fácil entender que Marina só tenha decidido autorizar que sua biografia fosse escrita depois de uma “roleta bíblica”, ou seja, de interpretar uma frase escolhida numa página da Bíblia, aleatoriamente. Ela leu a frase e entendeu como “sim”.

Desde adolescente, desde quando pretendia ser freira na igreja católica, a candidata do PSB exibe um pragmatismo temperado por fé de grande intensidade. Inicialmente, católica. Mais tarde, evangélica.

Concordo que o Brasil é um país de muitos preconceitos, inclusive contra os evangélicos. Eu me sentiria desconfortável se Marina decidisse atender a ordens de um bispo ou pastor, a partir de preceitos religiosos. Ordens que influenciassem políticas públicas voltadas para milhões de brasileiros, muitos dos quais se declaram agnósticos/ateus.

Marina nega que tenha cedido a pressões do pastor Silas Malafaia.

Se de fato o fez, teremos entrado num campo muito complicado, num campo em que revelações e visões de foro íntimo se transformam numa ameaça ao Estado laico.

Marina diz apoiar o ensino religioso optativo em escolas públicas, ao que muitos pais respondem: mas eu vou financiar, com meus tributos, um ensino que borra as fronteiras entre Estado e Igreja?

No campo religioso, há controvérsias sobre se Marina representa ameaça ao Estado laico. Ouvido por Conceição Lemes, o teólogo Leonardo Boff criticou a candidata. Justamente ele, muito elogiado na biografia. O livro revela a grande influencia exercida em Marina, ainda jovem, por Clodovis Boff, irmão de Leonardo, que ministrou à então militante do PRC/PT um curso sobre a Teologia da Libertação.

Não concordo com a política econômica exposta no programa do PSB e duvido que, eleita, Marina consiga viabilizar um governo exclusivamente de “bons”, sem alianças, a não ser que algum milagre converta os “300 picaretas do Congresso” — aos quais se referia Lula – em pessoas voltadas a atender prioritariamente os interesses da população. Na verdade, a prioridade de muitos dos eleitos é pagar os favores recebidos de financiadores de campanha, garantir a reeleição e, em alguns casos, simplesmente enriquecer.

Acho muito mais fácil enfrentar o problema da corrupção no Brasil com ações institucionais — por exemplo, a Constituinte exclusiva e o financiamento público de campanhas — do que com um repentino toque divino no coração de eleitores e eleitos. Corrupção se enfrenta com inteligência, não com fé.

Talvez o meu temor neste campo tenha nascido por ter testemunhado, quando ainda era correspondente nos Estados Unidos, o presidente George W. Bush promovendo orações dentro da Casa Branca ou em eventos públicos. Não era Bush comparecendo aos cultos como qualquer outro fiel. Era como se, em contato com Deus, tivesse recebido a bênção divina para suas ações políticas. Uma delas, a invasão do Iraque, causou a morte de ao menos 200 mil pessoas, o deslocamento de milhões de outras e uma guerra fratricida que ainda hoje perdura. É isso o que o Deus de Bush queria?

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